Dois contos de Nelson Rodrigues que permaneceram nas gavetas do pai da moderna dramaturgia brasileira finalmente chegam aos palcos. "Diabólica Vingança", espetáculo com direção de Renato Carrera, apresenta "A Mão Esquerda" e "Vingança" — textos nunca antes encenados — em uma montagem que coloca lado a lado as obsessões amorosas e os impulsos destrutivos que marcam a obra do dramaturgo. A peça está em cartaz no Futuros — Arte e Tecnologia, no Flamengo, até domingo (24).
Carrera conta que, durante uma oficina sobre construção de personagens rodrigueanos ministrada por ele, acabou conhecendo Crica Rodrigues, neta do escritor. Quando perguntou se havia textos inéditos nas gavetas do avô, "Vingança" chegou às suas mãos. O conto "A Mão Esquerda" já era conhecido entre estudiosos da obra, mas também nunca havia sido levado à cena. Como as duas obras compartilham um eixo temático - como o amor e a vingança podem levar uma pessoa ao limite -, o encenador arregaçou as mangas para dar vida ao projeto.
A montagem reúne Andreza Bittencourt, Dani Ornellas e o próprio Carrera no elenco. A estrutura em dois atos apresenta os contos na íntegra, sem alterações nos textos originais. A trilha sonora original é assinada por Adriano Sampaio e as projeções de Daniel de Jesus funcionam aprofundam a atmosfera das narrativas, conduzindo o público pelas zonas mais sombrias do afeto humano, aquele terreno onde amor e ódio se confundem.
Em "A Mão Esquerda", Lauro é um homem marcado por um segredo físico. Quando encontra o amor e se relaciona com sua namorada, descobre o significado do desprezo. A tensão cresce entre vergonha, desejo e ameaça, culminando em um desfecho macabro. "Vingança" apresenta Dinorá, mulher aprisionada em um casamento sem afeto, que encontra no leito de morte a oportunidade de ferir o marido com uma revelação irreversível. Os dois personagens trazem aquilo que Carrera identifica como uma constante na obra rodrigueana: situações e tipos que revelam as contradições do ser humano quando confrontado com os próprios limites.
Para Carrera, a relevância de levar esses contos à cena vai além da curiosidade histórica. "Diabólica vingança" é sua quinta montagem baseada em obra de Nelson Rodrigues — anteriormente, dirigiu ou atuou em "Vestido de Noiva" (Prêmio Questão de Crítica de Melhor Espetáculo), "Senhora dos Afogados" (com direção de Ana Kfouri), "A Serpente" e "A Falecida" (ambas no projeto "2 X Nelson"). A insistência em retornar a Nelson tem uma razão. "Nelson Rodrigues sempre esteve presente. Ele está dentro do brasileiro, queira ele ou não. Dói, mas é real. As vísceras invadem o falso", destaca, acresecentando que a obra do dramaturgo continua oferecendo material para refletir sobre a complexidade das relações humanas contemporâneas, especialmente quando se trata de violência de gênero, desejo, trauma e dinâmicas abusivas", comenta o encenador.
A peça é uma realização da Bruzun Company — companhia fundada oficialmente em 2024 com a estreia de "Os Bruzundangas", primeira adaptação para os palcos do livro de Lima Barreto — e da Palavra Z Produções Culturais, com direção de produção de Bruno Mariozz. Antes de chegar ao Rio, "Diabólica Vingança" estreou em Portugal, na Mostra de Teatro Brasil no Chapitô, em 2025.
SERVIÇO
DIABÓLICA VINGANÇA
Teatro Futuros — Arte e Tecnologia (Rua Dois de Dezembro, 63 - Flamengo)
Até 24/5, de quinta a domingo (19h)
Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)