Nelson Rodrigues encontra-se na galeria dos Sófocles, Shakespeare, Strindberg, Pirandello, dos O'Neill, e como maior representante da dramaturgia teatral brasileira, permanecerá atemporal, já que explana a alma humana. Reverenciado pela pluralidade de sua obra, atravessa-nos pela multiplicidade de suas ideias. Nossas falhas, idiossincrasias, maldades, invejas, traições, instabilidades sempre estiveram na sua escrita, insistentemente censurada.
Carlos Jardim acerta em relembrar citações rodrigueanas, que juntamente às obras indissolúveis, organizam seu texto. "Toda unanimidade é burra", "O berço é a primeira experiência na sepultura", "A vida é mais profunda depois da Praça Saens Pena", são algumas das pérolas deliberadas. Trazer à tona o emblemático "Vestido de Noiva", que modernizou o teatro no país em 1943, aclamando seu inventor, além de expor as vaias em "Perdoa-me Por Me Traíres", é adequado para desvelar o quanto Nelson foi amado e vilipendiado. Todavia, o autor do referido espetáculo dilui sua dramaturgia alicerçando suas ideias num campo jornalístico, desviando-se da ação dramática. Ao detectarmos uma carpintaria dramatúrgica de qualidades louváveis, ficamos atentos, sobretudo, para o encadeamento lógico-casual das partes, em que os fragmentos de espaço, tempo, ação, sustentam a obra. A não ser que estivéssemos diante de uma proposta contemporânea, mas não é o caso.
O diretor movimenta sua história no mesmo diapasão monocórdio da narrativa. Há uma complexidade na abrangência do material eleito que o encenador não aprofunda, criando marcas pouco expressivas, inocentes, afastando-se do universo avassalador, fétido, corrosivo, trágico, onde Nelson Rodrigues arquitetou personagens com raízes umbríferas.
Entretanto, a inteligência cênica de Bruce Gomlevsky impõe-se de tal forma que o espetáculo constrói-se na sua interpretação. Cada vez mais maduro, avança em dar vida aos ícones da cultura brasileira como Renato Russo, Raul Seixas, e agora explora com extrema sabedoria as ambiguidades, estranhezas, humores que o macrocosmo rodrigueano lhe conduz. O ator associa a dramaticidade potente à graça patética latente que nosso gênio da dramaturgia amalgamou, transitando com habilidade pelos vieses repletos de armadilha, por muitas vezes assemelhando-se fisicamente ao homenageado. As cenas em que regula à plateia a aplaudir o sucesso e a vaiar o fracasso são inebriantes.
Criativo, Nello Marrese apresenta uma engrenagem de tecido envolta em carretéis, metaforizando a estrutura interna da máquina de escrever, além de revelar uma imagem rubro-negra, numa alusão à paixão futebolística nacional, na qual Nelson era Tricolor inveterado. Trajando um estilo clássico, Maria Callou mantém a marca registrada do cronista. Elisa Tandeta acompanha com eficiência o projeto. E Liliane Secco valoriza com elegância as angústias e proezas rodrigueanas com sua trilha original.
SERVIÇO
NELSON RODRIGUES - O PASSADO SEMPRE TEM RAZÃO
Teatro 2 - CCBB RJ (Rua Primeiro de Março, 66 - Centro)
Até 25/5, segundas, quartas e sábados (19h) e domingos (18h)
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)