Correio da Manhã
Teatro

Uma casa e as memórias de um amor sem fim

Monólogo com Luciana Borghi leva ao palco as lembranças de Zélia Gattai e sua relação com Jorge Amado

Uma casa e as memórias de um amor sem fim
A cenografia recorre a caixas de papelão que guardam as memórias de Zélia Gattai, que começou a escrever aos 63 anos Crédito: Divulgação

Quando Luciana Borghi decidiu se mudar para a Bahia para estudar a vida de Zélia Gattai, ela não imaginava que dez anos depois estaria celebrando nos palcos um amor do tamanho da Bahia, ou melhor do Brasil. "Na Casa do Rio Vermelho - O Amor de Zélia e Jorge", monólogo escrito e dirigido por Renato Santos, está em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF).

O projeto nasceu em 2016, no centenário de Zélia Gattai, e estreou no próprio Memorial da Casa do Rio Vermelho, em Salvador. Desde então, a interpretação de Luciana ganhou camadas — a atriz conta que passou a habitar aquelas memórias, não como visitante, mas como quem realmente conhece cada detalhe daquele universo. A atriz entrevistou amigos da família, criou vínculos com os descendentes de Jorge Amado e Zélia, e transformou essa vivência em cena. "Precisava vivenciar aquele universo, a casa, não como visita, mas como quem habita aquelas memórias", comenta.

A dramaturgia é uma imersão nos 56 anos de casamento entre Zélia Gattai e Jorge Amado, dois dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Mas o foco está em Zélia — a mulher que começou a escrever aos 63 anos e se tornou uma das maiores memorialistas do país, autora de obras como "Anarquistas, Graças a Deus" e "A Casa do Rio Vermelho". No palco, Luciana dá voz a essa Zélia contadora de histórias, que por vezes se confunde com as personagens icônicas criadas por seu marido: ora apaixonada como Dona Flor, ora guerreira como Tereza Batista.

A estrutura da montagem se apoia nos próprios livros de Zélia, mantendo um formato de narrativa direta de lembranças emocionais. A música é elemento central — o repertório evoca o universo sonoro que preenchia a Casa do Rio Vermelho, um espaço que foi coração da cultura brasileira no século XX. Por lá passaram Pablo Neruda, Tom Jobim, Vinícius de Moraes... A trilha revela os estados de espírito de Zélia e o espírito de seu tempo.

O cenário, também assinado por Renato Santos, reforça o tom de recordação: caixas de papelão espalhadas pelo palco guardam objetos que evocam a vida do casal — máquinas de escrever, discos de vinil, fotografias. O figurino, criado por Goya Lopes, é inspirado nos bordados que Zélia apreciava, resultado de pesquisas sobre os países que ela e Jorge visitaram juntos. Cada detalhe contribui para transportar o público até aquela residência em Salvador, onde Zélia viveu por 40 anos.

Paloma Amado, filha dos escritores, testemunhou essa transformação. "Surge Luciana/Zélia com a mesma doçura, a mesma força, o mesmo rosto delicado. É uma felicidade que o público possa conhecer mais de minha mãe pelas mãos e sensibilidade da Luciana", afirma.

A peça funciona como um reencontro com a memória afetiva brasileira. Zélia Gattai, que faleceu em 2008, ganha nova vida no palco através de Borghi, permitindo que gerações que não a conheceram possam acessar sua história, sua voz, seu humor e sua inteligência.

SERVIÇO

NA CASA DO RIO VERMELHO: O AMOR DE ZÉLIA E JORGE

Centro Cultural Justiça Federal - CCJF (Av. Rio Branco, 241, Centro)

Até 24/5, aos sábados e domingos (16h)

Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)