Correio da Manhã
Teatro

Corpos periféricos (e livres) em movimento

Espetáculo 'Boca' utiliza a musicalidade das favelas e a simbologia de Exu para debater a fome de existir e resistência

Corpos periféricos (e livres) em movimento
O passinho é o ponto de partida de 'Boca', espetáculo que trabalha a indisciplina rítmica do funk como ferramenta de reorganização do caos cotidiano. Crédito: Berro/Divulgação

O Mezanino do Sesc Copacabana recebe até domingo (17) o espetáculo "Boca", nova criação do Grupo Corre. A montagem vai além da dança ao propor um manifesto sobre o corpo periférico como território de criação, utilizando o funk e o passinho como ferramentas de afirmação política e estética.

Sob a direção de Celly IDD, figura histórica e pioneira do movimento "Passinho Foda", a obra é o resultado de um amadurecimento coletivo de artistas que vivem o cotidiano das favelas do Rio. Desde o título, o espetáculo carrega uma carga simbólica: é o órgão que consome, que fala, que grita e que cospe. Na concepção do grupo, a boca é o princípio criador que "come o que precisa e cospe o que quiser", recusando-se a entregar ao mundo uma versão higienizada ou submissa da realidade das comunidades.

A dramaturgia estabelece um diálogo direto com a cena contemporânea do funk, mas amplia suas fronteiras ao incorporar elementos do afro, vogue e hip hop - fusão que reflete a própria natureza do passinho, fenômeno que se consolidou na primeira década dos anos 2000 nos bailes funk do Rio. Misturando o breakdance, o samba e o frevo, a dança tornou-se um símbolo global de resistência, ganhando visibilidade internacional em eventos como a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e, mais recentemente, no documentário "Passinho Foda: O Corre por Trás da Dança" (2025), disponível na Netflix.

A trajetória de Celly confunde-se com essa cronologia, sendo ela uma das principais responsáveis por sistematizar e profissionalizar a linguagem do passinho no cenário das artes cênicas contemporâneas. A pesquisa de movimento de "Boca" mantém raízes fincadas na diversidade popular brasileira, bebendo de fontes como o rítmica das escolas de samba e a capoeira.

Em cena, os corpos dos dançarinos não são apenas veículos técnicos, mas carregam trajetórias de sobrevivência e memórias de bailes. Um dos pilares da montagem é o texto-base do diretor artístico e pesquisador Léo Garcia, que introduz o conceito de Èsù Onã Ebo como disparador criativo. A figura de Èsù (Exu), a boca que tudo come e o senhor dos caminhos, serve como metáfora para a indisciplina rítmica do funk e sua capacidade de reorganizar o caos cotidiano.

A temporada no Sesc Copacabana foi celebrada pelo grupo como uma conquista territorial significativa. Para Celly IDD, levar o passinho — uma cultura que nasceu e se fortaleceu nas comunidades — para um espaço institucional na Zona Sul é uma forma de "atravessar a cidade com aquilo que já nos atravessa todos os dias". A diretora enfatiza que a intenção é garantir que esses corpos ocupem espaços de onde historicamente tentam ser excluídos, afirmando a cultura do funk não como uma novidade passageira, mas como um movimento contínuo e consolidado.

O Grupo Corre, fundado em novembro de 2021, nasceu dessa necessidade de colocar o passinho em posição de protagonismo nos palcos culturais, para além das batalhas de dança e intervenções urbanas. O espetáculo busca provocar no público um reconhecimento, convidando o espectador a sair do modo automático e olhar para si com mais liberdade e presença.

SERVIÇO

BOCA

Mezanino do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)

Até 17/5, quinta e sexta (20h30), sábado e domingo (19h30)

Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia), R$ 21 (sócio Sesc) e R$ 27 (convênios)