POR RODRIGO FONSECA
De braços dados com a transcendência, Angel Ferreira anda demolindo os arames mais bem farpados do moralismo em cada espaço por onde seu festejado "Sidarta" circula. Ate 24 de maio, a produção fica em cartaz na sede da Cia dos Atores, na Escadaria Selarón. Sua dramaturgia busca seu pavimento no livro homônimo publicado em 1922 pelo alemão naturalizado suíço Hermann Hesse (1877-1962), um autor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, em 1946. Na narrativa cênica, a plateia acompanha Sidarta, filho de Brâmane, em sua saída da casa dos pais. Seguido por seu melhor amigo, ambos aderem aos "Samanas", vertente espiritual que busca a iluminação por meio da mortificação do corpo.
Desconfiado e desiludido com as doutrinas, o protagonista conhece o próprio Buda e dele também se afasta, determinado a encontrar seu próprio caminho. Estabelece relação com uma cortesã da cidade, torna-se comerciante e se embrenha no vício e no materialismo para novamente deixar tudo para trás e retornar à simplicidade. Angel transpôs o romance para a cena sob a supervisão artística de Beth Martins e Renato Livera, numa interlocução dramatúrgica com Walter Daguerre. Quem o vê em cena sai arrebatado. O papo a seguir com o Correio revela as franjas de seu processo estético.
O que o reencontro com as inquietações e os valores de Sidarta, na retomada do processo de encenação, mais te impõe como desafio?
Angel Ferreira - Primeiro, para responder, fico me perguntando que valores essenciais seriam esses os de Sidarta. Aí me vêm coisas simples, como seguir "a voz do coração", mas que,na verdade, é sutil e profundo. Pra isso, ele se abstem de doutrinas e de seguir os mestres. Faz da própria vida um experimento em busca da paz. Esse compromisso radical dele com o que importa - a capacidade de amar e de reverenciar todos os seres, sem detestar o mundo - é uma reafirmação da vida. Resumindo muito meu desafio: como posso encenar alguém que escuta o coração? Pra mim, a prática é estar em contato com a minha respiração, momento a momento durante o trabalho. E isso é miúdo e imenso. Para ser honesto, nunca tinha feito uma peça onde eu firmasse minha atenção na respiração durante tanto tempo. Sabia da importância de respirar, mas nunca tinha realmente colocado minha atenção nisso de forma tão intencional.
Onde começa e termina Herman Hesse nesse seu processo cênico?
Ele começa na qualidade de um ser iluminado e termina aí também. Eu gosto de imaginar o Hesse como um artista da paz. Dizem que ele gostava de cultivar um jardim. Ele foi muito próximo do Jung. Ele era um místico, um artista humano, num tempo de nazismo. Imagine só! Então, ele é, pra mim, um mestre que dispõe a história como caminho pra olhar pra dentro de si. É isso que me importa... e isso é tudo. Já as palavras.. ou como eu conto essa história... eu peço licença todos os dias a ele, para que eu possa contar do meu jeito.
O que esse experimento te fez pensar sobre o ofício de ator?
Que nós somos uma porta. Na melhor hipótese pra mim, o trabalho de ator é uma porta que os espectadores, se assim tiverem coragem e desapego, entrega, podem entrar. Pra ser essa porta, o ator precisa estar fincado no momento presente. Atento, desperto, vivo e imprevisível. Assim o espectador pode ir além do pensamento, além também das emoções, e experienciarem o aqui e agora. Essa pra mim é a força do teatro, o ritual da presença, a história é só um canal pra isso acontecer. E a nós nos cabe não obstruirmos o momento, limpar o caminho e tirar da frente todas as ideias, todos os conceitos, e qualquer esforço para fazer qualquer coisa. É como uma dança onde o bailarino está invisível, só existe a dança.
Quais são as novas trilhas da peça ao longo deste mês?
Estamos de volta, dois anos depois... agora na sexta temporada..., ao espaço em que estreamos. E voltar é forte e simples, porque fica muito evidente que não há volta. O espaço é tão igual, que dá para sentir o quanto a peça está diferente. Ela amadureceu, ganhou silêncio e calma. No começo, ela era mais uma maratona, quase, do que um estado de fluxo. Agora, está diferente, e sigo aprendendo e tentando partilhar o que tenho aprendido. Mas é uma tarefa difícil contar através de palavras o que é que se vive em cena. Melhor ir lá ver a gente... ou rever..., na Sede da Cia dos Atores.
Que novos trabalhos pela frente?
Não tenho. Adoraria tê-los. Convites podem vir, estou aberto. E seguir contando essa história eu também quero.
SERVIÇO
SIDARTA
Sede da Cia dos Atores (R. Manuel Carneiro, 12 - Santa Teresa)
Até 24/5, sextas e sábados (19h) e domingos (18h)
Ingressos: R$ 90 e R$ 45 (meia)