Até quando o ser humano, aristotelicamente animal racional, é capaz de cultivar máscaras? De escamotear suas considerações reais? A refinada dramaturgia da francesa Yasmina Reza expõe com exuberância os questionamentos em "O Deus da Carnificina", premiada e adaptada em 30 países, com versão cinematográfica, dirigida por Roman Polanski.
Dois casais discutem como solucionar uma desavença física entre seus filhos. Divagam sobre o acontecido, aparentemente polidos, mas como numa terapia grupal deixam escapar suas verdades secretas e partem para um imbróglio acirrado. Em absoluta catarse coletiva, desviando do fato que os levaram até ali, elucubram sobre seus casamentos e profissões.
O embate toma força e ao mesmo tempo são interrompidos por telefonemas descabidos de uma das personagens, que insiste em atender o celular durante a confusão, revelando o quanto é mal educado, forçando à todos esperarem por ele enquanto articula soluções aleatórias como advogado. Costurado à tensão, um humor ácido é muito bem estruturado pela autora, que elabora quatro ótimas figuras em diálogos inspirados.
A encenação é o destaque da montagem, sobre a qual prioriza a hipocrisia da classe média-alta, impulsionando a ação dramática tão bem engendrada pela escritora. Numa viagem disruptiva, Rodrigo Portella assina também a surpreendente cenografia nada realista - já que no original estão todos num apartamento. Ambienta seu espetáculo num parque, que aliás é onde ocorre o confronto entre as crianças, colocando seus intérpretes sorvendo picolé, salientando a infantilidade daqueles papéis, ativando a imaginação do espectador. Mantém a caixa cênica aberta, aludindo o teatro disseminado naqueles seres. Institui pausas corrosivas, pelas quais o barulho do silêncio atormenta. Uniformiza seu elenco, orientando-os na compreensão de tergiversações e destempero das personas.
O elenco, talentoso, ilumina-se simultaneamente. Karina Teles domina sua personagem, absorta em aprimorada técnica. Há uma melancolia jocosa na atriz que transporta-nos ao talento da saudosa Yara Amaral. O Michel de Thelmo Fernandes é irônico, com oportunas pigmentações de humor que valorizam o espetáculo. Angelo Paes Leme elabora uma sobriedade adequada ao personagem e Anna Sophia Folch, idealizadora do projeto, é uma grata surpresa, trafegando com sagacidade. Todos num jogo harmonioso, executando com perspicácia o clima de tensão em perfeita sintonia dramatúrgica.
Karen Brusttolin enroupa os intérpretes em outra época, simbolizando elegância e fraude no caráter daquelas personagens, que vão desmantelando suas vestes a medida que a falsidade dá lugar à veracidade. Toda sujeira é clarificada pela luz de Ana Luiza Molinari de Simoni, que utiliza efeitos luminares laterais aquecendo os ânimos alterados.
"O Deus na Carnificina" descortina o quanto o ser humano continua distante de viver civilizadamente.
SERVIÇO
O DEUS DA CARNIFICINA
Teatro TotalEnergies - Sala Adolpho Bloch (Rua do Russel, 804, Glória)
Até 7/6, de quinta a sábado (20h) e domingos (17h)
R$ 150 e R$ 75 (meia)