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Limites tensionados

Débora Lamm define Cecília, sua personagem, como 'uma pessoa amoral que não tem o exercício do afeto e testa os limites da ética | Foto: Rodrigo Menezes/Divulgação

Adaptação teatral do romance homônimo de Andréa Del Fuego, 'A Pediatra' explora temas de poder, controle e violência em narrativa perturbadora sobre uma mulher sem escrúpulos

O romance "A Pediatra", de Andréa Del Fuego, publicado em 2021, chega aos palcos em sua primeira adaptação teatral. A montagem, dirigida por Inez Viana, que também assina a adaptação, está em cartaz no Teatro Firjan Sesi Centro com elenco formado por Débora Lamm, que interpreta Cecília, a pediatra protagonista, e Luis Antonio Fortes, que vive Celso.

A montagem é resultado de uma parceria entre Inez Viana e Luis Antonio Fortes, que idealizaram a adaptação do romance que se tornou referência na literatura brasileira contemporânea. "A Pediatra" conquistou leitores desde seu lançamento em 2021. Publicado em sete idiomas, foi considerado uma das melhores leituras do ano por críticos literários. A autora paulista é vencedora do Prêmio Literário José Saramago em 2011 com seu romance anterior "Os Malaquias". "A Pediatra" consolidou Del Fuego como uma das vozes mais inquietantes da literatura brasileira contemporânea, explorando temas de poder, controle e violência através de uma narrativa perturbadora construída em primeira pessoa.

A protagonista é Cecília, pediatra que, a partir de uma prática clínica aparentemente ética, passa a se envolver em uma série de decisões que tensionam os limites entre cuidado, controle e violência. Mulher instruída, bem-sucedida e socialmente integrada, a personagem revela um desejo profundo de poder e manipulação em sua relação com crianças, mães e corpos infantis. A narrativa contrasta a frieza do discurso científico com a brutalidade dos atos descritos, articulando temas como maternidade compulsória, biopolítica, misoginia e abuso de poder. Del Fuego constrói Cecília sem explicações psicológicas fáceis ou julgamentos morais explícitos, criando situações de desconforto para o leitor.

"Cecília é uma pessoa amoral, que estudou medicina pela facilidade de seu pai ser um médico benquisto por colegas e pacientes, mas ela mesmo não tem o exercício do afeto e o tempo inteiro testa os limites da ética, vivendo à margem do humano", define Débora Lamm, atriz e diretora com carreira que se estende por mais de duas décadas, conhecida por seus trabalhos em programas humorísticos.

Seu parceiro de cena descreve seu personagem como "um cara de caráter duvidoso e amante de Cecília, a pediatra que fez o parto de seu filho Bruninho, uma criança por quem ela se vê encantada. Mas Celso também está encantado por Cecília".

"Cecília é uma mulher privilegiada, classista, cheia de preconceitos. Ela não percebe que sua má conduta se volta contra si e contra todas as pessoas à sua volta, perdendo uma oportunidade de praticar a medicina de forma mais humanizada", observa Inez Viana, atriz e diretora teatral com mais de três décadas de carreira.

A montagem pretende envolver o público de maneira cúmplice na qual Cecília contará sua história, ajudando a entender seus conflitos e anseios.

SERVIÇO

A PEDIATRA

Teatro Firjan Sesi Centro (Av. Graça Aranha, 1 — Centro)

Até 24/5, às quintas e sextas (19h) | sábados e domingos (17h) | sessão dupla em 23/5 (15h e 17h)

Ingressos R$ 40 e R$ 20 (meia)