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Medeia e Jasão num confronto sem saída

Carolina Pismel e Paulo Verlings desdobram outras presenças sem recorrer a marcações fixas, criando campos de instabilidade | Foto: Rodrigo Menezes/Divulgação

Dramaturgia de Diogo Liberano, em cartaz no Teatro Firjan Sesi, subverte o mito deste casal trágico da mitologia grega

Quando Eurípides e Sêneca terminavam suas tragédias sobre Medeia, a personagem desaparecia em um carro alado, deixando para trás uma história que parecia encerrada. A dramaturgia inédita de Diogo Liberano, em cartaz no Teatro Firjan SESI Centro, faz exatamente o oposto: segura Medeia e Jasão no mesmo espaço, obrigando-os a permanecer diante daquilo que ainda não foi resolvido. É uma aposta de risco — transformar o que deveria ser um fim em um confronto sem saída.

O mito de Medeia e Jasão permanece como uma das narrativas mais perturbadoras da antiguidade. Ela abandonou sua terra e rompeu com a própria família para ajudar o herói a conquistar o tosão de ouro. Depois, foi descartada quando Jasão decidiu casar-se com a filha do rei de Corinto em busca de prestígio social. A resposta da personagem — marcada por uma vingança extrema — transformou o mito em reflexão duradoura sobre exclusão, poder e condição feminina. Na leitura de Eurípides (480-406 a.C.), Medeia deixa de ser simples monstruosidade para se afirmar como voz trágica de uma mulher estrangeira e humilhada, cuja dor expõe as fissuras morais de uma sociedade patriarcal. Ela é aceita enquanto útil e rejeitada quando se torna inconveniente. Ferida por uma estrutura de poder que a marginaliza por ser mulher, estrangeira e sem proteção política, sua vingança impede leituras simplificadoras: ela não cabe nem na figura da vítima passiva nem na da vilã absoluta. Sua ambiguidade é o que sustenta sua atualidade.

Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.), filósofo e dramaturgo romano, ofereceu uma interpretação diferente do mito, com ênfase em aspectos psicológicos e morais. A diferença de cerca de 450 anos entre os dois dramaturgos reflete como o mito foi reinterpretado em contextos culturais distintos — a Grécia clássica e o Império Romano. A escolha de Diogo Liberano em dialogar com ambas as versões é estratégica em sua dramaturgia, que começa justamente onde as tragédias clássicas terminam. Em vez de permitir a partida, a peça interrompe esse desfecho. Em uma casa comprimida no espaço e no tempo, os dois se reencontram. Do lado de fora, uma cidade em convulsão; do lado de dentro, um ar denso, onde memória e linguagem parecem não avançar. É nesse ambiente instável que o mito — amplamente conhecido pelo gesto extremo de uma mãe que mata os próprios filhos — é colocado sob tensão. E se essa história, tal como chegou até nós, não tivesse sido devidamente contada?

A peça se constrói como um confronto direto entre as duas figuras, interpretadas por Carolina Pismel e Paulo Verlings. Os atores atravessam diferentes registros de atuação e linguagem. Ao mesmo tempo em que encarnam Medeia e Jasão, também desdobram outras presenças — como o rei Creonte — sem recorrer a marcações fixas, fazendo do próprio jogo cênico um campo de instabilidade e transformação. Para o diretor Paulo de Moraes, "o grande desafio junto aos atores é manter sempre pulsante essa troca constante entre contar e viver a história de Medeia e Jasão".

A encenação organiza um sistema em que luz, trilha sonora, figurino e espaço não ilustram a ação, mas operam como extensão das rubricas do texto. A pequena casa em cena, longe de qualquer realismo, funciona como um dispositivo de pressão: um lugar onde o passado insiste, onde as versões colidem e onde o tempo parece poder ser interrompido. A linguagem do texto acompanha esse movimento. Partindo de um registro mais formal, associado à tradição trágica, o texto desloca progressivamente sua forma de dizer, aproximando-se de uma fala mais direta, sem abandonar a densidade que sustenta o embate.

A dramaturgia refaz e atravessa momentos centrais das tragédias clássicas — o primeiro encontro entre Medeia e Jasão, as negociações para o casamento do herói com a princesa Creusa — ao mesmo tempo em que inventa situações que nelas não aparecem. Ao avançar a partir dos desfechos consagrados, o texto desloca o foco da ação para aquilo que resta: o que não foi dito, o que foi transformado em versão dominante. Nas palavras do dramaturgo, "escrever Medeia hoje jamais poderia ser um ato para tornar o texto mais palatável. O ponto foi indagar por qual motivo Medeia é simplificada como uma mãe assassina e uma mulher vingativa. Por que as violências que ela sofreu são menores que os crimes que cometeu? Escrever outra versão para Medeia é reconhecer, com dificuldade, que o mundo não é o mesmo e está mudando".

SERVIÇO

MEDEIA

Teatro Firjan Sesi Centro (Av. Graça Aranha nº 1, Centro)

Até 2/6, às segundas e terças (19h) | Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)