Por: por Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / TEATRO / AS CENTENÁRIAS: Epifania sertaneja

É comovente a simbiose estabelecida entre Laila Garin e Juliana Linhares, em composições repletas de minúcias nesta versão musicada do belo texto de Newton Moreno | Foto: Divulgação

Num ideário de Andrea Alves e Juliana Linhares, produção da Sarau, a excelente obra de Newton Moreno, aporta mais uma vez intacta, referta de beleza. Há uma suavidade na finitude que faz a audiência permanecer inebriada pelos vocábulos poeticamente urdidos pelo autor pernambucano. E depara-se com o melhor do popular nordestino e seus cordéis, folguedos, incelenças, abordando a morte ludicamente. Duas mulheres amigas, potências da natureza, são carpideiras que orquestram o ato final, e na tradição milenar cuidam, banham, maquiam, vestem os falecidos, entoando lamentos e cantigas fúnebres, favorecendo uma atmosfera de absoluta comoção. A maternidade é a força motriz da peça, na qual morte e renascimento enlaçam-se para catapultarem vida, onde o tempo constrói amizade e resiliência.

Luiz Carlos Vasconcelos fabrica sua montagem com sapiência, enaltecendo a proposta dramatúrgica, equalizando dor e humor, eclodindo a tragicomédia que habita em nós. Conduz seu elenco poderosamente, costurando marcas inventivas que privilegiam a cena e a contracena. O momento em que Genésio é entregue à outra família e todo o desenrolar do simbólico tecido é de extrema delicadeza e teatralidade. Equilibra seu espetáculo, onde tudo dialoga equitativamente.

É comovente a simbiose estabelecida entre Laila Garin e Juliana Linhares, em composições repletas de minúcias. No alto de sua maturidade, Garin desenha uma Socorro primorosa. As cenas nas quais a personagem revela ser feia e quando torna-se Deus, são impagáveis. O corpo da intérprete de Zaninha é talhado para o ofício. Talentosa, a atriz aproveita cada detalhe quando fingi estar doente para seduzir seu Nonato, com variações de tons que enriquecem seu trabalho potente. Leandro Castilho abrilhanta-se em suas várias personagens. Todos cantam, encantam e evoluem em comunhão, amparados por precisa direção corporal de Vanessa Garcia e ótima direção musical de Elísio Freitas.

Aurora dos Campos cria uma estrutura de madeira funcional, que simboliza porta, igreja, ataúde, além de pernas e rotunda com tecido assemelhando-se ao revestimento de caixão. Kika Lopes e Heloisa Stockler trajam as atrizes numa paleta predominantemente preta, enriquecida com variações de textura (renda, tule, fazendas rústicas), fomentando uma profundidade visual. As silhuetas são volumosas e estruturadas, sobretudo as saias, ampliando a presença das personagens e deslocando o realismo para um campo simbólico. Amarrações, sobreposições e acabamentos em referência nordestina, além da impactante vestimenta avermelhada para a morte, no ator. A visagista Mona Magalhães mistura cordas, tranças, véus e redes, personalizando entidades. As inspiradas letras e músicas de Chico César são mágicas e auxiliam à escritura cênica. E a luz propositalmente sombria de Elisa Tandeta.

O teatro é uma fênix, assim como "As Centenárias" traduzem o eterno recomeçar.

SERVIÇO

AS CENTENÁRIAS

Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/nº, Centro)

Até 10/5, às quintas e sextas (19h) | sábados e domingos (17h)

Ingressos a partir de R$ 50