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Verdades desnudadas

Um dos textos teatrais mais aclamados dos últimos anos, "O Deus da Carnificina" retorna aos palcos cariocas em montagem dirigida por Rodrigo Portella, reunindo Ângelo Paes Leme, Karine Teles, Thelmo Fernandes e Anna Sophia Folch. Lançada há 20 anos, a peça de Yasmina Reza, em cartaz no Teatro TotalEnergies - Sala Adolpho Bloch, chega à sua terceira versão no país.

A trajetória de "O Deus da Carnificina" no Brasil começou em 2011, quando Emílio de Mello dirigiu a primeira montagem nacional, intitulada "Deus da Carnificina, uma Comédia sem Juízo", com Paulo Betti e Julia Lemmertz no elenco. A produção foi bem recebida no Rio e posteriormente levada a São Paulo, onde se estabeleceu como um dos melhores espetáculos do ano, segundo críticos da época. A peça regressou aos palcos paulistas em 2013, no Teatro Sérgio Cardoso, consolidando sua reputação entre o público brasileiro. Em 2017, uma terceira versão circulou pelo interior de São Paulo.

Internacionalmente, a peça já havia conquistado prêmios antes de sua chegada ao Brasil. Estreada em Zurique em 2006, ganhou o Olivier Award em Londres (2008) e arrebatou o Tony Award de Melhor Peça na Broadway em 2009, onde foi indicada em seis categorias. A adaptação para o cinema dirigida por Roman Polanski em 2011 — com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly — reforçou a visibilidade do texto que já foi encenado em mais de 30 países.

Na dramaturgia de Reza casais se reúnem para resolver civilizadamente uma briga entre seus filhos. Conforme a conversa avança, a cordialidade desmorona. Xícaras caem, discursos politicamente corretos se desintegram, e aquilo que parecia uma reunião racional de adultos racionais vira um campo de batalha emocional travado com humor ácido: quanto mais os personagens tentam manter a civilidade, mais violentamente ela desmorona, revelando egoísmos, infantilidades e ressentimentos que estavam ali o tempo todo.

Para Rodrigo Portella, a peça explora "o limite tênue entre civilidade e barbárie". "É como se os pactos e convenções sociais fossem frágeis demais para conter o que realmente somos". Essa perspectiva guia sua encenação, que aposta em dinâmica e tensão para potencializar tanto o riso quanto o incômodo que o texto provoca.

Para esta nova produção carioca, Portella aposta em uma encenação dinâmica que potencializa a tensão e o riso presentes no texto. Os quatro atores permanecem confinados na sala de estar de um apartamento onde acusações, ironias e revelações se acumulam. O elenco é experiente. Karine Teles e Angelo Paes Leme são conhecidos por trabalhos em cinema e televisão; Thelmo Fernandes tem longa carreira em teatro; e Anna Sophia Folch, que idealizou esta montagem.

"Poderia ter sido escrita ontem", comenta Anna Sophia, referindo-se à capacidade do texto de dialogar com questões contemporâneas como violência, patriarcado e dinâmicas de poder.

SERVIÇO

O DEUS DA CARNIFICINA

Teatro TotalEnergies - Sala Adolpho Bloch (Rua do Russel, 804, Glória)

Até 7/6, de quinta a sábado (20h) e domingos (17h)

R$ 150 e R$ 75 (meia)