Por:

Do controle ao crime

Enquanto o Brasil registra o maior número de feminicídios de sua história — 1.568 mortes em 2025, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública —, a peça "O Último Dia" encerra sua temporada na quarta-feira (29 de abril) no Centro Cultural Justiça Federal, na Cinelândia, como um exercício de escuta sobre a violência que antecede o desfecho extremo. A montagem, que esteve em cartaz desde 7 de abril, propõe uma reflexão incômoda: o feminicídio não é um ato isolado, mas o ponto final de uma longa sequência de abusos.

A peça é uma adaptação do livro homônimo de Mariana Reade e Wagner Cinelli, com direção de Paulo Reis e idealização de Ana Capella. Acompanha a trajetória de Luana, uma mulher comum que vê sua relação se transformar gradualmente em um ciclo de controle, medo e violência. O diferencial da encenação está em sua recusa do sensacionalismo: em vez de dramatizar o desfecho trágico, a dramaturgia privilegia o silêncio, a sutileza e o confronto emocional com o espectador. Cada gesto, cada palavra revela como o abuso raramente surge de forma abrupta, mas se instala de maneira progressiva e frequentemente naturalizada.

No elenco, Tainá Senna vive Luana; Eduardo Hoffmann, Ana Carbatti e Julia Tupinambá completam o elenco. Senna, que também é atriz, comentou sobre a urgência do projeto: "Vimos o número de feminicídios crescer no ano passado, um panorama desolador. Diante desse quadro, é cada vez mais urgente que não só a imprensa noticie os novos casos, mas que a arte traga este tema à tona. A arte também tem essa função de alertar e conscientizar a população". A coautora Mariana Reade, por sua vez, explicou sua motivação: "Escrevi esta peça movida pela esperança de contribuir para uma batalha que atravessa gerações: enfrentar o machismo que se infiltra no cotidiano, naturaliza a violência".

A violência doméstica contra a mulher assume múltiplas formas — física, psicológica, moral, sexual e patrimonial —, e não é raro que ocorram simultaneamente. Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça, a Justiça brasileira julgou, em média, 42 casos de feminicídio por dia em 2025, um aumento de 17% em comparação ao ano anterior. Neste contexto, a peça funciona como um documento artístico que torna visível o que frequentemente permanece invisível: a progressão silenciosa do abuso que precede a morte.

SERVIÇO

O ÚLTIMO DIA

Centro Cultural Justiça Federal (Av. Rio Branco, 241 - Centro)

Até 29/4, terça e quarta (19h)

Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)