Craque (e do tipo que não se derruba) na arte da inclusão, Marcus Vinícius Faustini resolveu otimizar a contagem regressiva para a Copa do Mundo (marcada de 11 de junho a 19 de julho na América do Norte) fazendo do futebol matéria teatral. Seu novo espetáculo, "Assim Na Terra Como No Céu", estreia em 30 de abril, no Teatro Ipanema, com sessões gratuitas, desenhando-se como um jogo. Não é um Fla x Flu clássico. Não tem gandula, nem bandeirinha, nem trave. Árbitro até tem: fica na consciência da gente, que há de pesar em meio à partida.
Uma partida falada, geopolítica, travada entre duas potências de nossos palcos, ambas em estado de graça no palco (a julgar pelo ensaio que o Correio da Manhã: Elisa Pinheiro e Paulo Verlings. Cineasta, gestor artístico, encenador, outrora Secretário de Cultura do governo Eduardo Paes e cronista, Faustini parte de um texto inédito do professor da UFRJ, antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares e põe Elisa na pele de uma jornalista de guerra, Nara. Em paralelo, transforma Verlings numa mistura de Romário com Neymar, mais um temperinho de Zico (isso quando se fala no binômio talento nos gramados marra): o jogador Vicente. À beira do colapso pessoal e profissional, em meio a um escândalo com bets (apostas digitais), ele convoca a repórter mais audaz da imprensa para uma entrevista. Na conversa entre eles, Luiz Eduardo marca um gol de humanismo, convertendo tropos sociológicos em soluços de angústia. Rolando a bola para Faustini, ele permite a esse Arthur Miller do Cesarão golear a nossa miopia midiática. No papo a seguir, o diretor, antes aclamado pelas peças "Capitu" e "O Filho do Presidente", fala sobre o quanto estamos míopes... e muito mais
De que maneira o futebol (ainda) carrega uma marca de dramaturgia da brasilidade? Onde e como o futebol entra na sua formação?
Marcus Vinícius Faustini - Quando eu era moleque, colecionava cartas dos times do Campeonato Brasileiro. Nunca completava o álbum. Faltava dinheiro. Mas aprendia outra coisa: negociar, trocar, conversar. A rua era uma espécie de arquibancada permanente. Essa paixão pelo futebol me formou como colecionador - e colecionar, no fundo, é um gesto cultural. É organizar memória, criar narrativa, dar valor ao que parece pequeno. O teatro brasileiro tem poucos dramaturgos que enfrentaram o futebol de verdade. Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, é uma referência, mas ainda é pouco diante da centralidade que o futebol tem na nossa vida. Hoje existe um debate global forte sobre esporte e saúde mental. Isso abre uma chave nova: o futebol deixa de ser só espetáculo ou performance e passa a ser também campo de subjetividade, de pressão, de colapso, de reinvenção. É aí que a dramaturgia pode entrar com força, não pra ilustrar o jogo, mas pra revelar o que o jogo esconde. A peça "Assim Na Terra Como No Céu" nasce nesse ponto: usar o futebol como linguagem para falar de poder, exposição, do que acontece com um sujeito quando ele vira personagem público.
De que maneira a presença do jornalismo em cena abre um debate sobre a dimensão de poder que a mídia brasileira sempre cultivou?
Hoje os jornalistas não estão só mediando a realidade, eles estão sendo diretamente atravessados por ela. Pressão das redes sociais, violência simbólica das fake news, ataques coordenados, interesses econômicos e políticos cada vez mais explícitos. Isso desloca o debate. Não dá mais para falar da mídia apenas como estrutura de poder, é preciso olhar para os sujeitos que operam essa máquina, sob tensão constante. A peça aponta para isso: a jornalista em cena não é só quem revela, é também quem está em risco. Nesse sentido, falar de jornalismo hoje é, inevitavelmente, falar de saúde mental.
Como se deu o processo criativo com Luiz Eduardo Soares? O que mais te atrai na obra dele?
Eu cheguei com uma provocação: futebol, bets, jornalismo, inteligência artificial, saúde mental — e ele transformou isso em conflito humano. Luiz não escreve tese, escreve gente. O que mais me atrai nele é essa capacidade de olhar para estruturas de poder sem perder a dimensão ética e subjetiva dos personagens. Ele entende o Brasil em profundidade, mas escreve sem didatismo.
De que maneira o gestor cultural, de forte formação política, que você é influi na sua forma de fazer arte? Neste momento do Rio, em que pé vai a nossa Cultura?
Não faço arte para ilustrar política. Faço arte entendendo que toda forma estética é também uma disputa de mundo. Minha formação como gestor me dá senso de contexto, de estrutura, de público real, não abstrato. Eu penso circulação, acesso, território. Penso quem vê e quem não vê. As políticas culturais que nos trouxeram até aqui tiveram acertos importantes na inclusão social, mas revelaram limites quando o assunto é consolidar a economia da cultura como trabalho estruturado e contínuo. Agora é hora de dar um passo além: precisamos de novas ideias de política cultural que articulem acesso, formação e sustentabilidade econômica.
Quando estreia o teu "Ana", filme vencedor do prêmio do júri no FestAruanda, em 2023?
Sou um cineasta independente. Isso traz desafios reais de viabilização, mas também uma liberdade decisiva para inventar caminhos. A circulação do filme está sendo pensada como experiência: exibição, debate e território. Não é só sobre lançar - é sobre criar encontro, produzir conversa, ativar sentido. Ele entra no circuito quando fizer sentido como gesto, não apenas como agenda.
Qual é o sentido afetivo de sua volta ao palco agora?
O teatro, pra mim, é o melhor lugar pra sentir e pensar a vida ao mesmo tempo. Eu venho escrevendo sobre isso há anos — e, no fundo, tem a ver com a minha própria formação. O teatro atravessa minha infância e juventude na periferia como espaço de descoberta, de linguagem e de possibilidade de mundo. Voltar ao palco agora não é um gesto nostálgico. É um retorno ao essencial, ao lugar onde o encontro acontece sem mediação- no corpo, na palavra e no risco.