Por: por Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / TEATRO / O EXTERMÍNIO DA CEGONHA: Evolução tecnológica

Há uma homogeneidade salutar no elenco, em que todos trafegam natural e teatralmente pela proposta cênica | Foto: Dalton Valério/Divulgação

O dramaturgo propõe uma viagem realista e abre sua narrativa de forma irreverente, em que as personagens divertem-se num karaokê, onde o público é convidado a participar, estabelecendo uma conexão de pertencimento, numa ideia de que todos os acontecimentos ali revelados poderiam ser vividos por cada um de nós. Isabel passa um feriado na sua cidade natal com seu namorado, sua irmã e seu cunhado, mas a chegada de Samuel, um amigo de longa data, acarreta conflitos inesperados, pelos quais o texto de Pedro Uchoa ganha força dramática. A espinha dorsal da obra está no avanço tecnológico, em que a era digital aniquila a realidade analógica, favorecendo um embate geracional, modificando o modus operandi da sociedade atual.

Tudo parece divertido com a geração Z, que parece desconhecer o mundo off-line, enumerando terminologias: algoritmos, aplicativos, plataformas digitais, filtros, engajamento virtual, cringe e até expressões como "White people problems", há anos na internet, e por aí vai. Ademais, o escritor surpreende-nos com uma reviravolta, amalgamando novos conceitos como responsabilidade emocional, memória, apagamento, dores silenciadas, problematizando o afeto em detrimento da velocidade contemporânea, na qual não encontramos mais tempo para relações aprofundadas.

A encenação, do próprio autor, valoriza e enriquece toda sua escrita, instituindo ritmo, poesia e teatralidade. A condução, a princípio, parece-nos de um naturalismo exacerbado, em que falas são "jogadas fora" - mas todas muito bem ouvidas e compreendidas. Na medida que a história encorpa-se, o humor transmuta-se em tristeza e temos a sensação de sermos um deles, felizes e trágicos. A cena do carro é bem marcada, e a ideia de que a internet mata a interação entre as pessoas é um acerto.

Há uma homogeneidade salutar no elenco, em que todos trafegam natural e teatralmente pela proposta cênica. Higor Campagnaro destaca-se com um Samuel carismático, repleto de nuances, desde sua aparição, em presença marcante. A cena da revelação feita por Isabel reverbera pigmentações variadas de seus intérpretes. Jean Marcel Gatti, Julia Limp, Nara Parolini e Pedro Uchoa elaboram com eficácia suas personagens, através das quais determinam um jogo afinado.

Carila Matzenbacher ambienta poucos elementos que conferem agilidade à montagem, com bancos, uma pequena geladeira e um televisor que auxilia a movimentação com uma projeção enquanto as personagens viajam. Além disso, a cenógrafa acerta em instalar um céu de mangas, simbolizando sinestesia, rememorando um passado analógico. O figurino de Luiza Fardin é corriqueiro, como deve ser. A iluminação de Hugo Mercier transita entre memórias e o momento tecnológico, ora criando ligeirezas luminares, ora aquecendo a caixa cênica em cores poéticas, desenhando sombras.

"O Extermínio da Cegonha" é uma criação divertida, leve e profundamente relevante.

SERVIÇO

O EXTERMÍNIO DA CEGONHA

Centro Cultural Banco do Brasil - Teatro III (Rua Primeiro de Março, 66 - Centro)

Até 26/4, quarta-feira a sábado (19h) e domingos (18h)

Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)