Quando um ator decide colocar no palco suas próprias reflexões sobre o ego e a saúde mental, o resultado pode ser incômodo — e é exatamente essa a provocação trazida por "Ego". O monólogo escrito e interpretado por Bruno Caldeira, com direção de Gustavo Rizzotti, chega a sua última semana em cartaz no Futuros - Arte e Tecnologia, no Flamengo.
O ponto de partida é o livro "Um Novo Mundo: O Despertar de Uma Nova Consciência", de Eckhart Tolle, e o filme "Waking Life" (2001), de Richard Linklater — uma animação que acompanha um jovem em discussões filosóficas sobre realidade, livre arbítrio e significado da vida. A partir daí, Caldeira constrói um "teatro de depoimento", termo que a produção usa para descrever uma estrutura baseada em relatos reais e experiências pessoais do próprio ator. Não chega a ser um monólogo tradicional, mas uma imersão em reflexões sobre atenção plena e consciência — aquilo que a psicologia chama de mindfulness, prática que ajuda a lidar com desafios emocionais do cotidiano.
A narrativa mescla filosofia, psicologia, literatura e artes visuais. O cenário e a direção de Gustavo Rizzotti — ator e diretor com mais de 30 anos de carreira, formado em Artes Cênicas pela UFMG — buscam criar uma experiência sensorial que conecte o público aos dilemas da vida contemporânea: o excesso de pressões, as distrações constantes, a desconexão de si mesmo. Bruno Caldeira, que integra a Cia. 2 de Teatro desde 2007, já havia trabalhado essas questões em Facínora (2010), onde atuava, dirigia e criava cenário, figurinos e trilha sonora. EGO parece ser uma evolução desse interesse em provocar transformação através da cena.
O timing da montagem coincide com dados preocupantes: o Brasil ocupa posições alarmantes em rankings mundiais de transtornos mentais, com milhões de pessoas afetadas por ansiedade, depressão e sofrimento emocional. Ao colocar o ego como a força que nos afasta de nossa essência e nos aprisiona em padrões de sofrimento, o espetáculo dialoga com essa realidade. Victor D'Almeida, gerente de cultura do Instituto Futuros, observa que a obra se insere na proposta curatorial do espaço, que reflete sobre os efeitos das novas tecnologias no comportamento humano e nas dinâmicas sociais. "Em um contexto de hiperconectividade como no Brasil, e de crescente debate sobre saúde mental, a obra convida o público a uma reflexão profunda e necessária", afirma Caldeira.
A Cia. 2 de Teatro, criada em 1994 pelos mineiros Frederico Magella e Gustavo Rizzotti, tem um histórico de trabalhos que combinam dramaturgia, teatro físico, dança, mímica e artes plásticas. Ao longo de 30 anos, a companhia apresentou seus espetáculos em países como Chile, Argentina, Venezuela, Colômbia, Peru, Bulgária, México, Tunísia, Turquia, Rússia e Estados Unidos, participando de quase 20 festivais. A produção de "Ego" é de Frederico Magella, e a supervisão dramatúrgica fica a cargo de Clarice Niskier, atriz, dramaturga e diretora.
SERVIÇO
EGO
Futuros - Arte e Tecnologia (Rua Dois de Dezembro, 63 - Flamengo)
Até 26/4, de quinta a domingo (19h)
Ingressos R$ 60 (inteira) / R$ 30 (meia)