Há uma delicadeza na forma pela qual Renata Mizrahi arquiteta seu texto, iluminando o doloroso percurso que pessoas em idade avançada são acometidas pela falta de memória. Vale ressaltar que pessoas com 40 anos já apresentam sintomas. Numa carpintaria bem urdida, a dramaturga utiliza a própria recordação para dar conta de seu tema inspirador. Embaralhando presente e passado, em transposições poéticas, a narrativa desenvolve-se em diferentes épocas desvelando um embate entre Marta e sua filha Laura, esfacelando a cronologia dos fatos, o que confere funcionalidade teatral à obra.
No momento presente as personagens encontram-se num consultório médico para uma consulta da genitora, que não reconhece mais a sua prole, a partir daí desenrola-se um resgate repleto de emoções, pelas quais mãe e filha chafurdam-se num turbilhão de acontecimentos vividos outrora. Marta é uma mulher estafada pelo acúmulo de funções, acarretando stress, esgotamento e distanciamento familiar. E é nesse mosaico de perturbações que a autora investe na redenção dos laços afetivos.
A direção de Miwa Yanagizawa não consegue traduzir a singeleza que Mizrahi enuncia, formatando um espetáculo endurecido, pouco teatral, em que passagens de cena são esgarçadas comprometendo o andamento do todo. Há um descompasso entre as atrizes que atravanca também o ritmo da encenação, com pausas alongadas da mais jovem, deteriorando o universo comovente.
Talentosa, Kelzy Ecard abrilhanta-se ao teatralizar as dores e conflitos de sua Marta, graduando com expertise seus tons, explodindo e neutralizando na medida certa. A atriz, segura do seu ofício, emociona com inúmeras mudanças que a personagem lhe propõe, além de instituir doses de humor na tragicidade pungente daquela demência, esmaecendo seu passado. Enquanto Juliana França atrapalha-se nos tempos distendidos, além de buscar comportamentos de humor deslocado. Na cena do mar, Kelsy caminha mais lentamente por estar dentro d'água, já Juliana parece estar em terra firme. A jovem atriz poderia embarcar na contracena com a experiente colega, para que não tenhamos a sensação de estarmos diante de contextos distintos.
O cenário de Tuca Benvenutti ambienta com eficácia a cena, misturando o consultório médico e sugestionando outros espaços, instalando uma mesa ao centro que opera como um novo pequeno palco. Todavia, o figurino de Teresa Abreu não diz a que veio, sem refletir aquelas personagens. No entanto, a luz de Nina Balbi é funcional, auxiliando a dramaticidade. A trilha sonora de Azullllll é de muito bom gosto, presenteando a audiência com uma seleção variada de belíssimas canções.
Num ideário da própria autora, a montagem de "Caminho de Casa" homenageia a trajetória significativa de Kelzy Ecard ao completar 35 anos de carreira. Esperamos que a atriz esteja sempre à caminho dessa sua casa, que sempre foi o teatro.
SERVIÇO
CAMINHO DE CASA
Arena do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)
Até 26/4, quinta a sábado (20h) e domingo (18h)
Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia), R$ 10 (associado Sesc) e gratuito (PCG)