Celebrando diferenças culturais e o amor familiar, Eri Jonhson transforma a nova montagem do imã de aplausos 'Aluga-se Um Namorado' num analgésico contra o mau humor
Quando se mete a fazer cinema, Eri Johnson põe a telona no bolso, vide o recente "Sexa", primeiro longa-metragem de Gloria Pires como diretora, na qual ele aparece rapidinho, mas gruda nas retinas da gente. "Sexo Com Amor?", que Wolf Maya dirigiu lá em 2008, tem a mesma situação: no que Eri entra em quadro, a câmera é dele... e o olhar da plateia também. Na TV, quem teve a chance de ver as sessões de análise de seu personagem, o jovem gótico Reginaldo, em "De Corpo e Alma" (1992-93), aprendeu sobre modalidades de introspecção e ainda riu de se acabar. Não haveria como ser diferente o devir teatral desse carioca de São Cristóvão, nascido num 22 de dezembro... tempo de Capricórnio.
Domingo agora, às 19h, será a última apresentação da temporada - abarrotada a cada apresentação - de "Aluga-se Um Namorado", que ele dirige e estrela. No palco, quica feito Coelho Ricochete, ao lado de uma luminosa Juliana Knust, com uma trupe inspirada (Betty Erthal, Raymundo de Souza, João Lima Junior e Marcondes Oliveira) ao lado deles, no Teatro dos 4 do Shopping da Gávea.
Rolam sessões ainda nesta sexta e neste sábado - só que às 20h. Como acontece nos outros media nos quais ele milita desde o fim dos anos 1970, no que a cortina sobe, a ribalta é de Eri.
"Eu sempre fiz comédia de uma maneira muito respeitosa, porque eu sempre acreditei que fazer rir é um negócio muito sério. Nos dias de hoje, as pessoas acham que têm dificuldade de fazer comédia porque 'não pode isso, não pode aquilo'. Mas, na minha humilde opinião, tudo que for feito com muito respeito, pode", diz Eri, ao Correio da Manhã. "Eu sempre procuro fazer os meus trabalhos com maior respeito, respeitando a mim e ao público. Então, acho que o grande sucesso do 'Aluga-se Um Namorado' é o elenco todo ter a certeza absoluta que a gente está fazendo um trabalho com muito profissionalismo".
Frisson teatral em língua inglesa, "Aluga-se Um Namorado" nasceu nos EUA, 1989, com o mix de ironia e afetuosidade que marca a obra de seu autor, James Sherman. "Beau Jest" (seu título original) estreou no Victory Gardens Theater, em Chicago, em novembro de 1989, sob a direção de Dennis Zacek. Ficou um ano em cartaz, lotando noite após noite, até pular para a Meca, NY. No Brasil, a tradução e adaptação para o português foram feitas daquele jeitinho na batata (ou seja, com precisão suíça... e graciosidade) por Gustavo Klein. A dramaturgia explora - com riso rasgado - as relações familiares, celebrando diferenças culturais e a relevância da convivência em bando... e a dois. Tudo começa quando a professora Sara (Juliana Knust) apela para uma agência de atores a fim de contratar um talento que possa interpretar seu namorado. Mas não é qualquer boyzinho, não. A família da moça quer que a cara metade dela seja judeu. E ela ainda convenciona que esse seu par perfeito é um médico... bem-sucedido, é óbvio!... que segue rigorosamente as tradições de Abraão, Moisés e demais mitos do Velho Testamento.
Eis que chega Alex Schneider, papel de Eri.
"Com o passar dos anos, fui conquistando a confiança e o reconhecimento do público. Pra mim, particularmente, no teatro, não mudou nada, pois eu continuo fazendo humor com bom humor", explica o ator, que, entre citações a letras de sucessos do Rei Roberto Carlos ("Esse Cara Sou Eu" é obrigatório) e evocações de seu Vasco amado, desarma o Teatro dos 4 em peso e faz geral rir.
Seu jeitão de botar a roda da comicidade para girar preserva os quiproquós da narrativa de James Sherman. A razão de Schneider ser "alugado" é justificada pelo fato de o real namorado de Sara não ser judeu. A partir daí, desenrola-se um torvelinho de mal-entendidos e armações. A mãe e o pai de Sara (vividos por Betty Erthal e Raymundo de Souza) e seu irmão psicanalista, Joel (João Lima Junior), são enredados numa farsa mucho loca, ao mesmo tempo em que o benquerer verdadeiro da moça, Cris (Marcondes Oliveira), fica na berlinda. O problema é que o Cupido, moleque dengoso, começa a rodar o trelelê de mentirinha entre Sara e Alex. O que poderia dar ruim ameaça "dar bom".
Em 1992, Eri se aproximou desse universo de James Sherman, numa montagem no Teatro Princesa Isabel que, de tão bem-sucedida, transformou "Aluga-se Um Namorado" num hit daqueles que toda hora volta. Segundo seu astro rei, o limite entre a crônica de costumes e a comédia romântica nesse espetáculo "é estabelecido pelo respeito".
"Até para improvisar, você precisa ter responsabilidade", defende Eri, que agora pretende viajar com a peça. "São muitos anos fazendo teatro, nunca deixo nada ser mais importante do que o respeito".
Servico
ALUGA-SE UM NAMORADO
Teatro dos 4 (Shopping da Gávea - Rua Marquês de São Vicente, 52, 2° piso)
Até 18/4, sexta e sábado (20h) e domingo (19h)
Ingressos: R$ 140 e R$ 70 (meia)