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Nas veredas rosianas

Gilson de Barros é um estudioso do universo de João Guimarães Rosa | Foto: Renato Mangolin/Divulgação

Trilogia teatral baseada em 'Grande Sertão: Veredas', a obra-prima de Guimarães Rosa, ocupa o Teatro Glauce Rocha com três solos idealizados e com atuação de Gilson de Barros

Neste 2026 o romance "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa, completa 70 anos desde sua publicação em 1956. Para celebrar a data, o projeto "Grande Sertão: Veredas - 70 Anos de Travessia" ocupa o Teatro Glauce Rocha com uma trilogia teatral que desdobra a narrativa do clássico em três perspectivas distintas. A ocupação ainda reúne oficinas, exposição de arte e ciclos de debate.

O coração do projeto é a trilogia interpretada por Gilson de Barros e dirigida por Amir Haddad, fundador do grupo Tá na Rua. As três peças — "Riobaldo", "No Meio do Redemunho" e "O Julgamento de Zé Bebelo" — exploram aspectos diferentes da obra: a primeira mergulha nos relacionamentos amorosos e no vínculo entre Riobaldo e Diadorim; a segunda investiga a dialética entre bem e mal, Deus e diabo, refletindo os conflitos morais do protagonista; a terceira apresenta o sistema de jagunços que marcou o sertão mineiro entre o final do século 19 e início do 20.

Barros começou a conceber a adaptação teatral entre 2015 e 2016, mas o processo de dramaturgia se estendeu até 2019, quando produziu uma primeira versão apresentada a grupos de leitura e eventos literários. Após receber críticas construtivas de Nélida Piñon e Antônio Cícero durante um evento na Biblioteca Parque, Barros apresentou o projeto a Amir Haddad, que demonstrou entusiasmo imediato. A colaboração resultou na estreia de "Riobaldo" em 2020, seguida por "No Meio do Redemunho" em 2023 e "O Julgamento de Zé Bebelo" em 2024.

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Ao conhecer o projeto, Amir Haddad aceitou dirigir Gilson | Foto: Renato Mangolin/Diculgação

Segundo Barros, Haddad o orientou para uma "interpretação narrativa" que cria o cenário na mente do espectador através de técnicas teatrais como luz e som. O ator descreve o processo: "Levei meses para compreender o que ele desejava. Ali residia a genialidade do Amir". Desde o início, a trilogia percorreu palcos brasileiros e internacionais. No Brasil, realizou 647 apresentações em 68 cidades, alcançando aproximadamente 14 mil espectadores, passando por São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba. Internacionalmente, foram 10 espetáculos: 6 em Portugal (Lisboa e Porto, com cerca de 600 espectadores) e 4 na Colômbia, durante a Feira Internacional do Livro de Bogotá, que alcançou aproximadamente 2 mil espectadores.

A trilogia já conquistou reconhecimento crítico: "Riobaldo" foi indicada ao Prêmio Shell RJ/2023 em duas categorias (Melhor Ator e Melhor Dramaturgia), e o conjunto das três montagens recebeu o Prêmio Arcanjo Especial. Em São Paulo, venceu o Prêmio Arcanjo de Cultura. O projeto reafirma a vitalidade de Rosa ao transformar a linguagem poética da obra em experiência estética que funciona tanto em grandes centros quanto em comunidades quilombolas e interiores do país.

A programação complementar amplia a experiência do público com o universo de Guimarães Rosa com a oficina "Tradução da prosa rosiana para a dramaturgia", no dia 22; a exposição de arte "Grande Sertão", da artista plástica Graça Craidy, com visitação até o dia 26; e ciclo "Conversas com Guimarães Rosa" realizado em universidades (UFRJ, UERJ, UFF) e no Colégio Pedro II, reforçando o caráter de pesquisa e ampliando o diálogo com estudantes e pesquisadores.

SERVIÇO

TRILOGIA TEATRAL GRANDE SERTÃO: VEREDAS

Teatro Glauce Rocha (Av. Rio Branco, xxx)

Até 24/4 - Quartas: "Riobaldo" (19h) | quintas: "No Meio do Redemunho (19h) | sextas: "O Julgamento do Zé Bebelo" (19h) | Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)