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Do apartamento para os palcos

Natasha Corbelino retorna ao Rio com "1 peça cansada", performance que nasceu do esgotamento. Após uma turnê teatral na França, a autora, atriz e produtora carioca enfrentava um cansaço físico e mental tão intenso que resolveu transformá-lo em matéria artística. O resultado é um espetáculo que, desde sua estreia em 2025 na sala de seu apartamento, conquistou mais de mil espectadores e realizou mais de 100 apresentações pelo país. Agora, de 13 a 21 de abril, a peça ocupa o Teatro Firjan Sesi Centro Centro.

O que começou como um projeto íntimo ganhou dimensões inesperadas. A performance chamou atenção de crítica e público: recebeu indicação ao Prêmio Shell de Teatro em São Paulo pela direção de figurino assinada por Natasha, passou por temporada em São Paulo em dezembro e segue em circulação. O diferencial da montagem está justamente na proposta de eliminar hierarquias convencionais do espaço cênico. O público é convidado a se acomodar confortavelmente — há até colchões para quem estiver mais cansado. Não há separação clara entre palco e plateia; há, em vez disso, um convite ao encontro que marca a prática artística de Corbelino.

A estrutura da dramaturgia é uma listagem de diferentes tipos de cansaço. Natasha reflete sobre fracasso e criação, rigor e liberdade, franqueza e coragem, tocando em pontos de identificação entre artista e espectadores. Ela enumera seus próprios cansaços — com a profissão, com relacionamentos interpessoais, com redes sociais — e propõe que esses sentimentos não são individuais, mas coletivos. A cidade está cansada, mas ainda brilha, é o que a performer sugere ao público. Visualmente, a peça trabalha com papéis como elemento central. Natasha aparece envolta neles, enquanto outros papéis — fotos, trabalhos de escola, até uma cópia da Constituição — repousam sobre uma mesa. Esses objetos também estão cansados, como a artista costuma dizer. E a Constituição, em particular, é apresentada como "a brasileira mais cansada".

A artista é conhecida por inventar modos diferentes de estar em cena e por seu apreço por performances de longa duração. Durante a pandemia, realizou uma transmissão ao vivo em que passou seis horas falando nomes de trabalhadoras da cultura; em outro momento, dedicou 12 horas a repetir a palavra "Educação" e sete horas a palavra "Constituição". Esse interesse pelo entrelaçamento entre teatro e performance marca sua prática artística.

Para Natasha, o aspecto mais importante do trabalho é a intimidade e cumplicidade desenvolvidas com os espectadores. "Quando voltei da turnê pela França, me dei conta de que precisava insistir em imaginar futuros com a cidade onde eu morava. Para isso, só inventando meu próprio trabalho independente naquele momento sem horizontes", comenta a artista. "Criei o único projeto honesto que eu poderia criar como artista e produtora, um espetáculo que traduziu aquilo que eu estava sentindo na época: um cansaço extremo." A volta ao Rio com a peça em um teatro maior representa uma mudança de escala significativa. "Nossos cansaços ocupam espaços imensos, então ocupar um teatro maior é o caminho para a comunidade cansada se sentir acolhida. É também reconhecer que essa experiência não é individual, é coletiva", explica Natasha.

A performance traz também uma reflexão sobre a relação entre criação e fracasso. Ao listar seus próprios cansaços — profissionais, pessoais, políticos —, Natasha propõe que a exaustão é um material válido para a arte e compartilha essa experiência num momento em que as demandas sobre nossos corpos e mentes se multiplicam.

SERVIÇO

1 PEÇA CANSADA

Teatro Firjan Sesi Centro (Av. Graça Aranha, 1)

De 13 a 21/4, segundas e terças-feiras (19h)

Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)