É dia de Stepan Nercessian subir ao palco: "Chatô e os Diários Associados - 100 Anos de Paixão" em cartaz no Teatro Claro Mais RJ, em Copacabana, tendo esse titã do nosso cinema no papel título. No audiovisual, ele é figura cativa desde 1969, data de sua estreia, numa arrancada já em posto de protagonista, à frente do cult "Marcelo Zona Sul", dirigido por Xavier de Oliveira. Dali, o James Dean de Goiás passou a década de 1970 a participar de filmes míticos, como "Rainha Diaba" (1974) e "A Gargalhada Final" (1979), tendo encarnado o Querô de Plínio Marcos (1935-1999) no "Barra Pesada" (1977), de Reginaldo Faria. Fez TV à pampa nas décadas seguintes e, a partir dos anos 2010, virou o divo do diretor Andrucha Waddington, que o transformou no Abelardo Barbosa do filme "Chacrinha: O Velho Guerreiro" (2018) e no Doutor Samuel da série "Sob Pressão". Paralelamente, Stepan ainda se firmou como escritor, ao publicar dois bons livros: "Garimpo de Almas" (editora Tordesilhas) e "Guia Prático para Inadimplentes e Negativados" (editora Albatroz).
Mas onde ficam as artes cênicas nesse seu périplo artístico? A resposta Stepan revela neste papo com o Correio da Manhã, ao analisar as escolhas estéticas de "Chatô e os Diários Associados - 100 Anos de Paixão", um texto de Fernando Morais e Eduardo Bakr.
Na base da dramaturgia, aparece a biografia "Chatô - O Rei do Brasil", best-seller escrito pelo supracitado Fernando. Tadeu Aguiar assina a direção geral do espetáculo, que aborda a trajetória profissional de Assis Chateaubriand (1892-1968), fundador do império midiático que transformou a imprensa brasileira. Produzido pela Voglia Produções Artísticas, o espetáculo é apresentado pelo Ministério da Cultura e Petrobras. É parte do Programa Petrobras Cultural.
O elenco inclui Marcelo Alvim como o aspirante a jornalista Fabiano; Aline Serra, como a também repórter Juliana; e Sylvia Massari como Dona Janete, secretária do comunicador. Stepan, nosso Chatô, fala a seguir sobre sua relação com o Midas das comunicações.
Como se deu seu processo de imersão no legado de Chatô e de que forma você construiu a figura dele em função de sua relação com a comunicação?
Stepan Nercessian - O Chateaubriand sempre esteve presente na minha vida, assim como esteva na vida da maioria dos brasileiros, através da televisão. Eu me lembro lá em Goiânia da TV Rádio Clube, do Clube do Curumim. Era tudo muito marcante porque era a chegada da televisão no Brasil. Então, essa imersão já existia um pouco dentro de mim. Fui descobrindo mais coisas lendo a biografia dele, que reli com mais atenção agora. Tem pouca referência física e da voz dele, então não me preocupei com isso. Tentei pegar mais a sua personalidade ativa.
Quem é o seu Chatô e o que ele representa da resiliência do povo do Brasil?
O meu Chatô é um impertinente, uma figura que não tem limites, não tem medo de nada. É um desassombrado. Ele enfrenta os poderosos e a burguesia, e faz tudo em função de um projeto que bota na cabeça. Ele quer ter um império de comunicação e vai construir esse império de qualquer maneira. A cara do brasileiro. Chateaubriand foi fundamental para construir o Brasil em que a gente está hoje. Não sei quanto tempo ainda teríamos de atraso se não fossem as ousadias dele.
Você fez história com o cinema, mas o teatro é uma presença na sua carreira. De que maneira se construiu a sua carreira nos palcos?
Talvez eu tenha feito menos teatro do que deveria. Eu falo que o teatro é um sacerdócio. Não basta ter talento e vocação, você tem que ter uma dedicação quase que matrimonial. Eu admiro muito meus colegas que se dedicam tanto ao teatro. Temos tantos grandes exemplos de pessoas apaixonadas. Eu fui meio bissexto nos palcos. Comecei fazendo com a Camila Amado, com quem eu fui casado durante anos. Estreei fazendo "A Dama das Camélias" lá atrás. Depois, fui fazendo esporadicamente, mas eu tinha muito medo de fazer teatro. Cansei de falar que, quando fiz cinema, bastaram duas ou três vezes e já sabia fazer cinema. Fiz uma ou duas novelas e já sabia fazer televisão. Mas, quanto mais eu fazia teatro, menos eu sabia. É um desafio constante, dia a dia. A dona Fernanda Montenegro me falou uma vez que teatro não é uma zona de conforto. E é verdade, não é uma zona de conforto, mas é apaixonante, alucinante e fundamental para a formação de um ator.
Como você, em sua trajetória plural de ator, escritor e diretor, vê o atual estado da arte no Brasil hoje? O que o cinema brasileiro vem expressando hoje de melhor?
Costumo dizer que, quando o país está bem, a arte vai bem. Não dá para dissociar uma coisa da outra. Porém, em determinados momentos, a arte tem feito mais pelo Brasil do que o Brasil pela arte. O artista brasileiro é resiliente. Vai lutando contra a maré, vai enfrentando todas as dificuldades do mundo e vai construindo um acervo cultural brasileiro. A arte é uma das nossas maiores riquezas. Neste momento, por exemplo, fico muito feliz de ver filmes brasileiros conseguindo projeção internacional. Mas é pouco. Há uma quantidade enorme de filmes feitos aqui que ninguém vê e nem fica sabendo. Não chega ao público e isso me preocupa muito. Enquanto uns poucos ganham prêmios internacionais, outros tantos não são nem exibidos no Brasil, quanto mais no exterior.
Quais são seus próximos passos para o teatro e para as telas?
No teatro, vou estrear agora o Chateaubriand para uma curta temporada. No cinema, tenho convites para fazer filmes. Na TV, vamos gravar a segunda temporada de "Os Donos do Jogo", e acabei de fazer uma novela... Vou fazendo o que vai aparecendo.