Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Artérias que inflamam latinidade

'Veias Abertas 60 30 15 Seg' é uma página radical na história do grupo Aquela Cia | Foto: Divulgação

Uma releitura de 'As Veias Abertas da América Latina', o clássico de Eduardo Galeano, mescla política e poética no desfecho da 34ª edição da maior maratona teatral do país

Por que se lê... tanto... dentro e fora do ambiente universitário... a prosa do jornalista uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), a ponto de ela render um espetáculo teatral, chamado "Veias Abertas 60 30 15 Seg", que promete ser "A" sensação da reta final do Festival de Curitiba. A resposta pode estar nas frases que ele deixou como legado, tipo: "Vivemos em plena cultura da aparência: o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus."

Se a dialética dele não te convenceu ainda, talvez seja o caso seguir o que esse escritor sugeriu em seu "Dias e Noites de Amor e de Guerra" (1978), ao escrever: "Quando as palavras não são tão dignas quanto o silêncio, é melhor calar e esperar". A maior maratona teatral deste país vai tirar suas próprias conclusões sobre o autor, desta noite até sábado, nas duas apresentações, no Teatro Sesc da Esquina, da peça encenada sob a direção de Marco André Nunes, centrada na adaptação de Galeano feita por Carolina Lavigne e Pedro Kosovski.

É um trabalho radical na história do grupo Aquela Cia. Em cena estão Carolina Virgüez, Matheus Macena e Rafael Bacelar, embalados pela música de Felipe Storino, em fricção sob a direção de movimento de Márcia Rubin. A meta é investigar o que Galeano escreveu em seu best-seller, "As Veias Abertas da América Latina", inventário das feridas narcísicas de nosotros y nuestros hermanos, editado em 1971. Nunes explica ao Correio da Manhã o recorte que a dramaturgia seguiu:

"É duro o livro. O próprio Galeno achava um livro duro, mas muito revelador. É um ensaio sociológico que fala da dependência econômica e da exploração das riquezas da América Latina pela Europa, pelos Estados Unidos. Vai desde a primeira invasão europeia no continente até, mais recentemente, todas as explorações feitas pelos americanos. São muitos casos que ele relata de exploração... e de revolta. Isso é uma sucessão, é quase como uma grande repetição de histórias. Quase todas são a mesma coisa: há uma exploração; em algum momento, aquilo gera revolta; aquela revolta é abafada, destruída, exterminada; e segue o período de exploração... e assim vamos. Ele divide em ciclos. O ciclo de exploração do açúcar, do ouro, do algodão, do café, da borracha, da banana. E foi justamente (o ciclo d)a banana que eu, o Pedro, Kosovski e a Carolina Lavigne, junto com os atores, escolhemos como um caso específico. Ele contém toda essa repetição que nos assola durante tantos séculos", explica o encenador.

"Veias Abertas 60 30 15 Seg" narra a história de um casal, um militar e um funcionário da United Fruit, que se conhece em aulas de dança e decide se casar. O casamento coincide com o Massacre das Bananeiras, em 1928, na Colômbia, quando o Exército reprime uma greve, matando mais de 2 mil trabalhadores. A trama se desenrola em 80 quadros curtos, que variam entre 15 e 60 segundos. Máscaras tradicionais, figurinos típicos e músicas populares da América Latina compõem a cena. O ritmo fragmentado reflete os modos contemporâneos de consumir informação e (por vezes) diluir memórias.

"O 'Veias Abertas' vem dentro de um projeto de continuidade do grupo que eu fundei junto com o Marco André Nunes, o Aquela Cia., e essa peça celebra nossos 20 anos", diz Kosovski ao Correio. "Depois de uma longa trajetória, pensando a questão da memória, da história do Rio de Janeiro, nós resolvemos dilatar e ampliar essa pesquisa artística para a história da América Latina. Então partimos do clássico do Galeano, uma obra de não-ficção, jornalística, que foi um hit dos anos 1970, sobretudo na esquerda engajada. Partirmos de uma afirmação do Galeano sobre o livro, feita 40 anos depois de sua publicação, quando ele disse numa entrevista que se voltasse a ler o 'Veias Abertas', cairia desmaiado e acabaria num pronto-socorro. Essa prosa da esquerda tradicional é pesadíssima. E aí, de algum modo, o próprio Galeano renega a leitura de seu texto mais icônico e dá uma virada. Passa a escrever não com linguagem argumentativa, mas com uma linguagem mais poética, mais metafórica, com textos curtos. A gente parte desse momento para poder entrar em sua obra".

Um dos artistas mais prolíficos do teatro carioca da atualidade, Kosovski estará presenta no desfecho do Festival de Curitiba, neste fim de semana, com "Mulher Em Fuga", adaptação de escritos do francês Édouard Louis. Segundo o dramaturgo, transpor para o palco as "Veias Abertas" de Galeano é pensar uma releitura de um clássico e de tudo que ele propõe acerca do nosso histórico de colonização.

"A força de rebelião está pautada no corpo. Então, acho que é essa a leitura que a gente tenta trazer, de forma contemporânea. É pensar, de algum modo, o corpo como esse lugar de alvo... de alvo exploração... mas, ao mesmo tempo, também de meio de luta de emancipação e de libertação", explica Kosovski. "É o único meio".

"Mulher Fuga", que será apresentado no Guairinha, tem direção de Inez Viana e conta com Malu Galli e Tiago Martelli em cena. A versão de Kosovski acompanha Monique, mãe de Édouard Louis, em diferentes momentos de sua vida: os casamentos marcados pela violência, a criação solitária dos filhos, a reconstrução de sua trajetória e, por fim, a busca por uma vida independente. Ao narrar a libertação dela, o autor transforma uma história íntima em um gesto político, revelando as estruturas sociais que silenciam e subjugam mulheres.

O Festival de Curitiba termina neste domingo.