Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Sempre teremos o amor

'Visita a Domicilio' se impõe nos palcos paranaenses ao celebrar um reencontro | Foto: Divulgação

'Visita a Domicílio', estruturada na ponte Brasil x Argentina, consagra-se no gosto do público da maior maratona teatral do país, que há de transcender com Angel Ferreira em 'Sidarta'

Ninguém que circulou nos últimos dias pela maior maratona teatral do país, realizada (há três décadas) no Paraná, saiu do evento sem notar "Visita A Domicílio", história de reencontro que parece ter calado no fundo nos corações solitários (e naqueles bem acompanhados) na plateia.

O Hotel Mabu, no Centro da capital paranaense, tinha folders e pequenos cartazes dessa peça por todo lado. Nestes tempos digitais, onde tudo é QR Code e postagens de Instagram, quem acredita que a comunicação via papel está obsoleta caiu do cavalo com a estratégia por trás da coprodução Brasil x Argentina baseada num texto de Alberto Romero. A ocupação do olhar por meio de uma campanha gráfica impressa deu certo e gerou um interesse convertido em boca a boca dos mais entusiasmados, com direito a "É Imperdível!". Haverá uma apresentação a mais desse rasga-coração estrelado pelo argentino Juan Manuel Tellategui e pelo brasileiro Cícero de Andrade nesta quinta, às 18h30, no Teatro Paiol.

Seu enredo engloba um dos substantivos preferidos pelas artes cênicas desde a paixão entre Édipo e Jocasta, lá na milenar Tebas dos Antigos: o benquerer proibido, interditado, censurado, ou, no caso, alvejado pela intolerância. A premissa da dramaturgia de Romero é uma pergunta: o que você faria se encontrasse seu primeiro grande amor da adolescência 25 anos depois... e de forma inesperada? O 34° Festival de Curitiba tem uma resposta para essa demanda numa love story, com a trombada inusitada entre Gabo e Fernando. Eles viveram um amor escondido na adolescência, por conta do preconceito ao redor. Passou-se um quarto de século desde o sumiço repentino de um deles. Agora, por conta da traquinagem do Cupido, rola um esbarrão inesperado entre eles em Buenos Aires. E agora? Faz-se o quê?

A peça celebra os 30 anos de carreira de Juan Manuel Tellategui, idealizador do projeto, que vive Gabo. Celebram-se também os 20 anos de carreira de Cícero de Andrade, que dá vida a Fernando. Ambos atuam sob a direção de Zé Guilherme Bueno e Miguel Arcanjo Prado.

No time criativo, "Visita A Domicílio" tem direção de movimento de Zuba Janaina e conta com cenografia e figurino de Kleber Montanheiro. A iluminação é de Nicolas Manfredini.

A sagacidade desse coletivo em espalhar registros de "Visita A Domicilio" por Curitiba fez com que um potencial sucesso tivesse lugar na ribalta. A primeira apresentação foi na terça, na grade do Fringe, a seção do festival dedicada a exercícios de ousadia. Nessa seara, esta tarde, o TELAB - Teatro Laboratário da FAP recebe "O Canto da Mulher-Pássaro", expressão de Raiane Lima como performer e dramaturga, sob direção de Íris Xavier, numa discussão sobre a noção de "corpa", numa afirmação feminina da corporalidade.

Macaque in the trees
'Como Um Palhaço - Like a Clown' põe a comédia em discussão | Foto: Renato Mangolin/Divulgação

Caminhando-se para sua reta final, o Festival de Curitiba recebe, nesta sexta-feira, aqui do Rio de Janeiro, o que promete ser uma cerimônia de riso e ironia: "Como Um Palhaço - Like A Clown". Em cena, a direção, a dramaturgia e a interpretação ficam por conta de Helena Bittencourt e Goos Meeuwsen. Trata-se de uma palestra sobre palhaçaria... ou quase isso.

A sinopse oficial se refere a artistas que usam a menor máscara do mundo (o nariz vermelho) de modo cru: "uma comédia contemporânea para aqueles que os amam e para os que os odeiam". Dois acadêmicos assumem o desafio de apresentar uma palestra quando as coisas tomam rumos inesperados. O espetáculo desconstrói a imagem do palhaço, pesquisando os diversos significados que a profissão adquiriu ao longo do tempo. A ideia é distorcer arquétipos clássicos da palhaçaria, transitando entre o passado e o presente, misturando influências culturais e técnicas teatrais para mergulhar na identidade em constante evolução do palhaço. A encenação será na Caixa Cultural de Curitiba.

Macaque in the trees
'Sidarta' revisita Hermann Hesse e a noção moderna da transcendência | Foto: Cláudio Pitanga/Divulgação

Esta noite, Angel Ferreira vai demolir os arames mais bem farpados do moralismo ao levar seu festejado "Sidarta" para o Teatro José Maria Santos. De 1 a 24 de maio, a produção vai ser encenada no Rio, na sede da Cia dos Atores, na Escadaria Selarón. Sua dramaturgia é inspirada no livro homônimo publicado em 1922 pelo alemão naturalizado suíço Hermann Hesse (1877-1962), autor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, em 1946. Na narrativa cênica, a plateia acompanha Sidarta, filho de Brâmane, em sua saída da casa dos pais. Seguido por seu melhor amigo, ambos aderem aos "Samanas", vertente espiritual que busca a iluminação por meio da mortificação do corpo. Desconfiado e desiludido com as doutrinas, conhece o próprio Buda e dele também se afasta, determinado a encontrar seu próprio caminho. Estabelece relação com uma cortesã da cidade, torna-se comerciante, embrenha-se no vício e no materialismo para novamente deixar tudo para trás e retornar à simplicidade.

Angel transpôs o romance para a cena sob a supervisão artística de Beth Martins e Renato Livera, numa interlocução dramatúrgica com Walter Daguerre. Sua interpretação arrebata.

O Festival de Curitiba encerra suas atividades neste domingo.