Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Quem passar... ou já passou... pela Praça Generoso Marques, na capital paranaense, nesta manhã de quarta-feira (8), dificilmente vai se esquecer das destrezas dignas de picadeiro de Giovana Laranjeira e Sol Ferreira ao encenarem "A Farfúncia". É uma intervenção lírica, com toques circenses, num espaço urbano circulado por milhares de transeuntes - por vezes alheios à magia da arte. As duas atrizes-palhaças fazem daquele terreno curitibano uma arena para o riso, em histórias mediadas pelas crueldades da relação patrão e empregado na cidade, no campo e no meio artístico. Karl Marx aplaudiria a dupla, em seu ensejo de partir da luta de classes para fazer teatro a céu aberto. Por isso, a obra que constroem se faz necessária na programação do Fringe, a mostra paralela de maior vigor libertário do Festival de Curitiba. É dali que brotam potenciais sucessos populares. É ali que se descobrem novas estrelas, talhadas para o porvir da indústria teatral no país.
Nesta quarta, por exemplo, o Fringe se estende pela Praça Santos Andrade, onde Gisele Rosa e Cassio Godim apresentam "Estado de Natureza". É uma reinvenção em forma de performance do livro "A Sociedade do Cansaço", do sul-coreano Byung-Chul Han - encenado faz pouco no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro. Esta tarde, no Bebedouro do Largo da Ordem, a seção mais radical da maratona cênica de Curitiba abre chão para "Nosferatu", de Douglas Kondi, sobre uma figura enigmática, com nome de vampiro. Ali mesmo, pela manhã, rola "O Conto das Três Melancias", comédia encenada por João Otávio Góis, na qual um jovem viajante ajuda uma senhora a catar lenha.
Folclores de diferentes regiões e relatos farsescos têm recheado o Fringe de iguarias desde o início do Festival de Curitiba, no dia 31 de março, de mãos dadas com o circo, sempre que pode. É por isso que Esteban Fidel Yocco "recebe" o Payaso Fidel na Praça Osório, nesta quarta, para levar o espetáculo "Vainilla y Chocolate" para o público circulante do Paraná. A mesma dinâmica vale para "Tertúlia e o Fantástico Circo de Pulgas", que a palhaça Fernanda Nunes performa nesta quinta, no palco ruínas.
Egresso de Florianópolis, o espetáculo de cunho experimental catarinense "Soledad - Peça De Agitação", de Mariana Corale, com Fátima Costa de Lima, promete atropelar diferentes locais de Curitiba (como a Rua Monsenhor Celso e as Praças Osório e Santos Andrade), neste fim de semana, com memórias clandestinas de mulheres da América Latina. A partir da aproximação de imagens da vida da poeta e militante Soledad Barrett Viedma, Corale abre um processo de costuras materiais e alegóricas, aproximando suas plateias de situações de enfrentamentos, num relato pavimentado por utopias e abençoado pela ancestralidade feminina.
Nesta sexta, o Fringe avança pelo Teatro Laboratório da FAP com "Carne Final", de Analú Arreguï e Gabriela Veira, a fim de expor as marcas que moldam nossos corpos. Nesse mesmo espaço universitário, rola, nesta quarta e nesta quinta, "O Canto da Mulher-Pássaro", com Raiane Lima.
Se você suspeita de que as ousadias do Fringe não comportam expressões artísticas para a infância, espera só até conferir "Consuerto Para Crianças E Crionços". Sua dramaturgia se pauta na bagunça das convenções que nos cercam. Sua apresentação nº 1 rola nesta quinta, na Praça Generoso Marques. Ali mesmo, na sexta e no domingo, é possível conferir a farsa "O Brownie da Bruxa", que terá encenações também no sábado (na Praça Santos Andrade, às 16h30). É uma comédia que se aterra numa cidadezinha hipotética do século XIX, onde pessoas de classes econômicas diferentes engatam romances proibidos.
Nesta quarta, em sua mostra principal, o 34º Festival de Curitiba testemunha as encantarias artísticas do Coletivo Prot{agô}nistas ao acolher, no teatro Guairinha, "{FÉ}STA", exercício de gira e de vida que transforma o picadeiro em um ritual traçado por quatro pontos inerentes à condição humana: morte, nascimento, união e fé. Entre acrobacias, dança e música, a trupe bate cabeça para a força que transita entre mundos assegurando potências ao viver.
A peça de melhor acolhida em Curitiba do fim de semana para cá foi "O Motociclista no Globo da Morte", de Leonardo Netto, cujo enredo evoca a tragédia recente da execução do cachorro Orelha, embora tenha sido escrita (e encenada no Rio) bem antes do caso. Eduardo Moscovis usa sua voz melíflua para narrar uma confusão em um bar envolvendo um cãozinho que é alvo de brutalidade. O esquema de insulamento lírico que envolve o personagem transforma um desabafo numa homilia sobre a fé no humanismo... uma fé que, por vezes, desaponta a gente.
O Festival de Curitiba encerra suas atividades no dia 12, quando acolhe o badalado "Mulher Em Fuga", com Malu Galli.