Espetáculo da Cia Atores da Fábrica, 'Sertão Urbano' traz a saga de uma menina que cruza cidade degradada em busca de uma planta medicinal
Laura tem 10 anos, vive com a avó na Baixada Fluminense e precisa encontrar uma planta medicinal capaz de salvá-la. O caminho até lá passa por uma cidade atravessada por alagamentos, desigualdades e encontros que transformam. Essa é a narrativa do espetáculo infanto-juvenil "Sertão Urbano", em cartaz no Teatro Municipal Ruth de Souza, em Santa Teresa.
A montagem, da Cia Atores da Fábrica, propõe uma reflexão sobre as tensões entre o sertão e a metrópole, o rural e o urbano, a tradição e a modernidade. Conduzida por cinco atores — Ana Portela, Letícia Esteves, Liv Olivier, Le Felipe e Iza Pereira — a narrativa é musicada: os intérpretes cantam e tocam instrumentos em cena, criando um impacto que funciona tanto para o público infantil quanto para adultos.
A história começa quando Dona Carmem, avó de Laura, adoece e precisa de um remédio feito do sumo da planta Favela. Quando uma chuva de granizo alaga a cidade e interrompe o trajeto do ônibus em que está, Laura decide seguir a pé pelas ruas inundadas. No caminho, encontra personagens que transformam a dureza da vida em poesia: Neco Batuque, catador que faz música do lixo; Bianca Doçura, cordelista; Manu Polivalente; e Dona Guiné, guardiã de saberes ancestrais. Cada encontro marca a jornada da menina.
A obra estabelece um vínculo direto com a ancestralidade nordestina de Laura e com o impacto que o êxodo rural ainda exerce sobre as famílias brasileiras. O cenário escolhido — a Baixada Fluminense — é historicamente marcado pela migração nordestina e pelas enchentes que fazem parte do cotidiano. Segundo Alexandre O. Gomes, criador e encenador, o espetáculo emerge de uma investigação que tensiona a relação entre o sertão e o espaço urbano. "A gente passou a enxergar esse território como um outro tipo de sertão, um sertão urbano, que vai além do literal e também diz respeito ao sertão que existe em cada um de nós, que resiste e se reinventa", reflete.
Um dos elementos centrais da peça é a ressignificação da favela. Historicamente estigmatizada como lugar de perigo, a favela é apresentada no espetáculo como comunidade e resistência — um espaço onde pessoas se ajudam e se juntam em torno de um objetivo comum. Além disso, a obra traz a favela também como uma planta medicinal real, conhecida por suas propriedades cicatrizantes e anti-inflamatórias. Essa escolha resgata saberes ancestrais e provoca uma revisão crítica sobre o significado da palavra. "Muitos não têm conhecimento da origem da palavra 'favela', e o espetáculo traz essa história à tona a partir da relação entre o Nordeste, a Baixada Fluminense e a jornada dessa menina em busca da cura", explica Gomes.
O espetáculo aborda questões como o racismo ambiental e os impactos das desigualdades sociais nas periferias. Para o ator Le Felipe, que integra o elenco, a obra nasce de experiências concretas do território: "Todos os temas abordados na peça têm relação direta com a vivência desse lugar. Existe um racismo ambiental que a gente enfrenta todos os anos, com enchentes cada vez mais intensas atingindo principalmente as áreas mais vulneráveis. O espetáculo fala dessa realidade, da nossa relação com a natureza e com o lugar onde vivemos."
SERVIÇO
SERTÃO URBANO
Teatro Municipal Ruth de Souza (Rua Murtinho Nobre, 169 - Santa Teresa - Parque Glória Maria)
Até 26/4, sábados e domingos (11h)
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)