Espetáculo de João Falcão que revelou Wagner Moura, Lázaro Ramos, Vladimir Brichta e Gustavo Falcão em 2000 volta aos palcos, com novo elenco e novas ambições estéticas
Nordestina virou "O" point do Brasil... nas artes cênicas... em 2000, quando sua geografia de erosões, desamparos, devaneios e invenções foi apresentada ao país na peça "A Máquina", que partia de escritos de Adriana Falcão para revelar ao mundo uma nova geração de talentos. Um deles, nascido na cidade de Rodelas (BA), ganhou o Globo de Ouro de Hollywood, há três meses, e conquistou uma indicação ao Oscar: Wagner Moura, de "O Agente Secreto".
Foi sob a direção de João Falcão, que ele apareceu... atuando no Armazém 14, no Porto do Recife, ao lado dois outros baianos que viriam a se tornar ilustres. Um deles, Lázaro Ramos, ganhou os holofotes de Cannes, em 2002, por sua arrebatadora atuação em "Madame Satã", e se fez consagrar como escritor best-seller, ativista do combate decolonial e cineasta (com "Medida Provisória"). O Outro, Vladimir Brichta, é galã nas novelas da Globo, ganhou prêmio por sua genial atuação no filme "Bingo" e hoje brilha nas telonas em "Velhos Bandidos". Vindo de Pernambuco, Gustavo Falcão, o quarto divo dessa trupe, colecionou aplausos nas peças que estrelou e fundou o projeto cultural lunático, no Rio. Passado um quarto de século desse acontecimento teatral, Gustavo volta a unir forças com João Falcão, seu tio, a fim de jogar luz sobre um outro coletivo de estrelas, numa nova fricção de sua encantada "A Máquina", levada com sucesso ao Festival de Curitiba, no último fim de semana. Agnes Brichta, filha de Vladimir, que era menininha na montagem original, está em cena agora.
"Esse texto fala muito de Tempo e parte do Nordeste, que é a mistura de tudo o que a gente tem neste país: é negro, é indígena, é europeu. O Nordeste é onde eu bebo para me inspirar, é para onde sempre volto", disse João Falcão ao Correio da Manhã, nas sempre lotadas coletivas do Festival de Curitiba.
Foi ele quem dirigiu a versão cinematográfica de "A Máquina", produzida por Diler Trindade e premiada com a láurea de júri popular no Festival do Rio de 2005. Há 20 anos cravados, o longa entrou em cartaz, trazendo os quatro intérpretes originais, mais Mariana Ximenes e Paulo Autran (1922-2007), com canção original de Chico Buarque em sua trilha sonora. Gustavo era o protagonista dessa adaptação. Agora, divide com João a criação do regresso de uma narrativa de cunho fabular, promovendo uma novíssima geração de estrelas.
"É bonito ver que essa nova turma tem as mesmas dúvidas que a gente tinha", diz Gustavo.
No enredo de "A Máquina", o jovem sertanejo Antônio constrói, num ferro-velho, uma espécie de engenhoca capaz de viajar para o futuro. Com ela, busca evitar que sua amada Karina, doida para conhecer o mundo, abandone a cidade de Nordestina, onde vivem. Nada acontece por lá, de praxe. Cabe a Antônio fazer acontecer. Na encenação dos anos 2000, personagem feminina que faz o coração de Antônio acelerar foi confiado à atriz Karina Falcão. Agora, a tarefa ficou para Agnes Brichta.
Os Antônios eram quatro... Gustavo, Lazinho, Waguinho e Vladimir. A conta segue a mesma na montagem vista em Curitiba, mas o quarteto atual é composto por Alexandre Ammano, Bruno Rocha, Marcos Oli e Vitor Britto, que formam o Coletivo Ocutá. "A ideia de futuro mudou muito, da peça original para cá, sobretudo com a inteligência artificial e as demais expansões da cultura digital", disse João Falcão. "Nosso cuidado nessa nova montagem era não deixar que o amanhã parecesse uma coisa de época".