Casagrande emplaca um gol de emoção na maior maratona teatral do país em espetáculo no qual revive suas glórias nos gramados e sua luta contra as drogas
Falta uma semana para o aniversário de Walter Casagrande Júnior. No próximo dia 15, o ex-jogador que foi ídolo no Corinthians e jogou pelo mundo afora chega aos 63 anos. O aplauso que arrancou... várias vezes... em suas aparições no 34º Festival de Curitiba, jogando não mais como artilheiro, mas, sim, noutra posição - a de astro do palco do Guairão, casa de espetáculos também GG do Paraná -, funcionou como "parabéns!" antecipado para o craque. Ele frisou em vários momentos da encenação de "Na Marca do Pênalti": "Não sou ator. Não tem roteiro. O que vocês vão ouvir aqui é o que sair da minha cabeça".
Apesar do aviso dele, o que se viu em cena foi uma modalidade teatral - das mais contagiantes - no diálogo frontal com o público: stand-up. No caso, o que o ex-atleta e hoje comentarista Casão faz é uma stand-up dramedy. O drama vem de seu relato sobre as drogas, numa descida ao Inferno radical, e a comédia se faz viva em suas recordações de picardias como pedir a um torcedor uma camisa emprestada para presentear a cantora Rita Lee (1947-2023), cumprindo uma promessa.
Sob a direção de Fernando Philbert (um dos mais prolíficos encenadores do Brasil), Casagrande lembra que prometeu um mimo à cantora, que foi vê-lo no estádio. Como esqueceu de levar para ela o uniforme com que iria presenteá-la, recorreu a um entusiasta da torcida corinthiana.
"Minha relação com o teatro sempre foi de ser público, apenas, mas a opção de subir em um palco, para contar a minha vida, era tentadora. Sou viciado em adrenalina, afinal, eu sou um esportista", diz Casagrande ao Correio da Manhã, rindo ao ser chamado de "amigo imaginário" da claque de fãs de sua coluna no portal Uol. "Eu tenho vários 'amigos imaginários' também, que estão nessas recordações, nas imagens que a peça mostra. (O jogador) Sócrates foi um deles. O Magrão foi a primeira pessoa na vida a quem eu disse 'eu te amo', pelo tanto que o admirava. Não conseguia dizer isso nem, para os amores que eu tive, e para minha ex. Ao longo da vida, eu guardei muita coisa. Deixei de falar muita coisa. Agora, depois de um ano de internação pela dependência química e de muita terapia, já consigo botar as coisas para fora".
Alguns dos lances mais brilhantes da carreira profissional de Casagrande nos gramados são relembrados numa tapeçaria de imagens que cobrem seus relatos em "Na Marca do Pênalti". O stand-up vai circular o país, pós-Curitiba, depois da Copa do Mundo, onde a sabedoria de seu intérprete vai ajudar o Brasil a entender os passes de nossa seleção e de seus adversários.
"A ideia por trás desse título, 'Na Marca do Pênalti', é falar de escolhas. Existem pênaltis que têm consequências para a vida toda, assim como certas decisões que tomamos", disse o desportista, que foi tema do obrigatório documentário "Casão, Num Jogo Sem Regras", feito por Susanna Lira para o Globoplay.