Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Dramaturgia em carne viva

Malu Galli encarna com maestria a conturbada trajetória de Monique, uma mulher em fuga diante do abuso e da violência | Foto: Leonardo Bonato/Divulgação

‘Mulher em Fuga’ vira o fenômeno da vez no teatro brasileiro, ao imergir na prosa de Édouard Louis, novo Proust da literatura, que busca a dignidade perdida... pela intolerância

Desta quinta (2) até a Páscoa, mesmo com a Sexta-feira da Paixão no meio do caminho, ainda é possível recorrer ao Teatro Firjan Sesi Centro para conferir o que, até o momento, configura-se como o acontecimento teatral de 2026 no Rio: "Mulher em Fuga". Já viu se viu muita coisa boa desde janeiro nos palcos da cidade, mas nada que tivesse feito tanto barulho - e não apenas pela desenvoltura de Malu Galli com o ator Tiago Martelli - para além das artes cênicas, para além do palco, tangenciando o microcosmo da cultura por múltiplas vias, de mãos dadas com a literatura.

A resenha do crítico Cláudio Andrey (abaixo) justifica o esplendor estético da encenação de Inez Viana, a partir de uma dramaturgia em carne viva que Pedro Kosovski extraiu da literatura de Édouard Louis, o Marcel Proust do momento. O impacto na vida carioca da adaptação de "Lutas e Metamorfoses de uma Mulher" (2021) e de "Monique se Liberta" (2024) - dois pilares da prosa do escritor francês de 33 anos - tem tudo para se repetir na rotina do povo paranaense, uma vez que o espetáculo se impõe como um ímã de plateias para o 34° Festival de Curitiba. O evento... uma espécie de Cannes do teatro brasileiro... vai receber Malu e Martelli em sua reta final, nos dias 11 e 12, no Guairinha, consolidando as pesquisas de Inês em cena.

Monique, a protagonista, papel de Malu, espelha a realidade feminina de muitos cantos deste planeta, em especial um Brasil de evasão paterna contínua, no qual as mulheres brasileiras assumem a chefia de suas famílias, sendo obrigadas a reinventar suas vidas. "A gente está vivendo um momento muito difícil por conta da feminicídio, da misoginia, dos grupos Red Pill, que sempre existiram, mas afloraram e, agora estão com menos vergonha de se apresentarem. Tem um movimento muito grande contra as mulheres. A cada apresentação da peça, a gente ouve depoimentos de mulheres que viveram violências", conta Inez.

Clima de catarse

"Algumas conseguiram sair, algumas não conseguiram ainda. São catarses realmente que acontecem depois do espetáculo. Elas me procuram, procuram a Malu, falando sobre como conseguiram sair de uma relação abusiva e das consequências que isso gerou. Há uma vingança por parte dos homens, quando eles são abandonados, quando as mulheres dizem que não querem mais. O espetáculo, de alguma forma, mesmo sendo uma história de uma mulher no interior da França, respinga muito na gente também. No mundo todo. Aí a gente precisa também que os homens se engajem nessa causa totalmente".

No momento em que Jair Bolsonaro foi eleito para a presidência, a revista "Quatro Cinco Um" publicou um artigo, em novembro de 2018, levantando a bola de um galeto ao belo canto que, nascido e criado em Picardy, a uns cem quilômetros de Paris, fazia da autoficção um aríete para resistir a tudo o que se associava àquele governo então recém-empossado no Brasil. Seu livro n° 1, "En Finir Avec Eddy Bellegueule" (2014), apresenta, em chave autobiográfica, a infância e adolescência do autor em Hallencourt, no norte da França, tematizando pobreza, violência e homofobia como dispositivos de reprodução social. O autor tinha apenas 22 anos quando se fez editar e, rapidamente virou frisson de crítica e febre de vendas, tamanha a brutalidade de seu relato, ao descrever a infância e o começo da adolescência de um guri que está se descobrindo (e se aceitando) gay em uma pequena região operária. Monique estava sempre no radar.

Édouard foi o primeiro de sua família a frequentar a universidade e o único, até agora, a se tornar popstar das Letras, contando com um trabalho minucioso da editora Todavia em sua disseminação entre nós. Marília Scalzo é quem cuida de sua tradução para o português. "A masculinidade da classe dominante está ligada à pobreza, mas não à pobreza econômica. Está ligada à pobreza psicológica e intelectual", disse Édouard à Globonews, em visita ao país.

Macaque in the trees
Édouard Louis, um fenômeno literário europeu | Foto: Divulgação

Sua vinda aqui foi digna de Celacanto. Provocou maremotos ao destilar fel contra a escritora italiana Elena Ferrante (de "A Filha Perdida") e apontar ao aparelho ideológico de uma patrulha que chama de "polícia literária". Seus comentários o levaram ao cadafalso do cancelamento, mas o vigor de sua escrita - associada à crueza com que cartografa agressões à população queer numa fatia da Europa não endinheirada - salvaram-no. O boom de "Mulher Em Fuga" também segurou sua onda. Tem gente que já viu a peça três vezes voltando para novas apresentações, atraídas pelo furacão Malu como Monique.

Cá em solo brasileiro, além de sua cadeia de livros editados pela Todavia - como "Quem Matou Meu Pai" e "Mudar: Método" -, Édouard ganhou a adesão da universidade. É tema das aulas de Beatriz Resende na UFRJ, no Fundão, num curso que lota. Ele também já foi encenado aqui antes de "Mulher Em Fuga". Em 2025, Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky foram ovacionados no espetáculo, "Eddy - Violência e Metamorfose", que era uma pancada no quengo, tal qual o trabalho de Malu Galli e Martelli. O personagem central da imersão de Luiz Felipe e Grabowsky transpirava (no palco) os escritos de Louis, num amalgama entre mimese e projeção, cozido em ácido sulfúrico geopolítico por um João Côrtes em ebulição, ao lado de Julia Lund.

Ideia de recomeço

O que o Rio vê (e Curitiba verá) em "Mulher em Fuga" é o cotidiano de Monique, a mãe do autor, em diferentes momentos, cansada de guerra, cansada das cacetadas do benquerer e do sistema financeiro. Ela insiste em recomeçar, apesar de tudo. Édouard participa da encenação por meio de voz off, na cena em que ele e sua mãe conversam ao telefone. "Monique é uma mulher comum: dona de casa, mãe de cinco filhos. E, como toda mulher comum, Monique é uma mulher extraordinária", diz Malu no material promocional da peça, que foi idealizador por Martelli.

Calçada na cenografia Dina Salem Levy (e da cenógrafa assistente Alice Cruz), com desenho de luz de Aline Santini e trilha sonora de Felipe Storino, "Mulher Em Fuga" revela um Velho Mundo de entranhas adoecidas. "Nós atribuímos aos países europeus uma espécie de ideal, olhando a Europa como um local onde a sociedade, onde a justiça e, de algum modo, toda a vida política e econômica seria mais estável, mais partilhada. No entanto, nós vemos através do relato do Édouard que existe por lá uma violência muito grave, muito estrutural", explica Pedro Kosovski, ao analisar seu trabalho como dramaturgo.

"A partir disso, podemos pensar que há um projeto ocidental civilizatório que, de algum modo, estabeleceu, ao longo da História, o capitalismo como o único modelo possível de relação. E dentro do capitalismo o que se replica é a cultura patriarcal, é a cultura da violência. O que está aí na estrutura do capitalismo são as formas de dominação masculina. No Brasil, o que a gente percebe é, talvez, uma intensificação ainda maior desses processos, considerando que, claro, que temos uma política ainda mais precarizada, em uma economia ainda mais precarizada, em função de toda uma realidade histórica de colonização. Edouard ressalta processos de desumanização. Na escrita dele existe um fluxo emocional com muita intensidade. De algum modo, a gente consegue chegar nesse lugar em cena. Sobretudo no que a cena tem de corpóreo, de materialidade, de afetivo, de presencial e coletivo", analisa o dramaturgo.

 

CRÍTICA / TEATRO / MULHER EM FUGA: Metamorfose na dor

Thiago Martelli e Malu Galli são bem articulados na construção de seus personagens numa situação delicada, cheia de tropeços em 'Mulher em Fuga' | Foto: Leonardo Bonato/Divulgação

Por Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

Pela primeira vez no Brasil, Édouard Louis - um dos mais potentes escritores europeus da literatura contemporânea, em seus relatos autobiográficos, transforma a vida de sua própria progenitora em arte, recebendo adaptação teatral de Pedro Kosovski, que mistura dois obras do autor francês, urdindo competente carpintaria.

O dramaturgo opta por narração e personagens amalgamados, o que teatraliza sua obra. Monique, mãe do autor, é uma mulher sofrida, depauperada, vítima de humilhações e da violência de um casamento abusivo, diante de uma estrutura patriarcal vigente. Há uma reedificação vital que a personagem percorre em busca da liberdade, pela qual a narrativa ganha força poética. Tudo isso num embate edificante entre mãe e filho.

Perspicaz, a direção de Inez Viana acentua a teatralidade, estabelecendo variações na confluência de estados dramáticos, costurando as transições cênicas com extrema fluidez, instituindo suspensões que valorizam o espetáculo, além de conduzir com sabedoria seus atores.

Malu Galli trafega com expertise tanto nos percursos dolorosos quanto nos momentos em que busca comicidade, sem deixar de escapar a dor de sua Monique, que vocifera repetidas vezes: "Eu vou ser livre". A atriz, em perfeito domínio técnico, ainda explora e desenha um corpo adequado à personagem.

Tiago Martelli, também idealizador do projeto, impõe segurança ao vivenciar o autor, ótima emissão vocal, armando com precisão a duplicidade de narrar e contracenar. Mãe e filho, numa relação delicada e repleta de tropeços, são bem articulados pelo elenco que apoia-se com facilidade.

A cenografia de Dina Salem Levy traduz o contexto com eficiência, ambientando uma mesa longa, que remete ao distanciamento das personagens, além de metaforizar um palco sobre o outro, já que a história desagua em teatro, ampliando a criatividade de encenação. Uma bateria - em outra ótima ideia, tocada por Galli, marca a força da personagem e sua libertação, onde a trilha muito apropriada de Felipe Storino presenteia-nos com a beleza de "Wind of Change", hino de esperança da banda Scorpions, do álbum "Crazy World, em 1990. O figurino é simplório como deve ser, enroupando Monique num moletom vermelho, já Louis veste preto, carregando a tenebrosidade de sua história. Ao abrir o pano, a luz de Alini Santini diz a que veio recortando/encaixotando Monique, desvalida ao chão, desvelando sua prisão, além de cores que invadem o espaço em texturas aquecidas. Vale acrescentar a delicadeza de Paulo Maeda na operação de luz.

A montagem de "Mulher em Fuga", além de valorizar a literatura contemporânea, ilumina propostas de reflexão sobre violência de gênero e de posturas sociais que inviabilizam e deterioram mulheres em várias dimensões. O espetáculo reverbera como uma estratégia política, em que a mulher ainda hoje, permanece vítima de malditos companheiros e toda uma sociedade opressiva.