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Lembranças e reflexões de uma artista libertária

Zezé Polessa retoma parceria artística com Miguel Falabella no musical 'Os Olhos de Nara Leão' | Foto: Priscila Prade/Divulgação

Montagem escrita e dirigida por Miguel Falabell segue em cartaz no Teatro Clara Nunes com Zezé Polessa interpretando Nara Leão, cantora que marcou a canção popular brasileira

Zezé Polessa segue em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, revivendo a trajetória de Nara Leão em "Os Olhos de Nara Leão", montagem escrita e dirigida por Miguel Falabella. Em temporada até o dia 26, o espetáculo oferece uma evocação intimista à vida e obra da cantora que se eternizou como uma das grandes personalidades da música brasileira.

A morte prematura de Nara Leão - aos 47 anos, em 1989 — interrompeu uma carreira de mais de duas décadas marcada por ousadia artística e liberdade criativa. Seis décadas após o lançamento de "Show Opinião", show de 1965 que reuniu Nara Leão, João do Vale e Zé Kéti, o espetáculo resgata a importância de uma mulher que se recusava a ser rotulada ou presa a um único gênero musical.

No palco, Nara aparece como se viesse de algum lugar do futuro — ou do passado — para compartilhar com o público lembranças e reflexões sobre sua própria existência. O texto não segue uma cronologia linear ou preocupações com datas formais. Abraça a liberdade que sempre caracterizou a própria cantora, que transitou entre a Bossa Nova, o Tropicalismo, os festivais da canção, o samba-canção, as músicas de protesto e até o rock. "Eu não procuro imitar o seu jeito de falar ou cantar. Existe uma liberdade em todo este processo, não poderia ser diferente com alguém que sempre foi tão livre", comenta Zezé, ao falar de seu processo de construção da personagem.

A atriz interpreta ao vivo sucessos como "A Banda", "Corcovado" e "Diz que fui por aí", entre outros. Com direção musical de Josimar Carneiro, cenário de Marco Lima e iluminação de Cesar Pivetti, o espetáculo perpassa os diversos movimentos artísticos pelos quais Nara transitou. Ela esteve no coração do nascimento da Bossa Nova, flertou com o Tropicalismo, participou dos grandes festivais da canção — e foi quem escolheu Maria Bethânia para substituí-la quando deixou o elenco de "Show Opinião" — resgatou compositores antigos, cantou samba-canção, músicas de protesto durante a ditadura militar e ainda experimentou a Jovem Guarda.

Ao longo das cenas, temas centrais à vida da cantora vêm à tona: a repressão sofrida durante o regime militar, o exílio, o avanço do debate feminista, a revolução comportamental das décadas de 1960 e 1970, a maternidade, seus relacionamentos amorosos e as demais paixões que marcaram sua trajetória pessoal. As canções surgem para pontuar momentos de uma vida que se confunde com a história do Brasil daquele período.

Zezé Polessa não é novata em interpretar cantoras em cena. Sua trajetória inclui musicais como "Noel Rosa", de Domingos de Oliveira, "Receita de Vinicius" e uma versão de "A Noviça Rebelde". O desafio desta vez foi selecionar quais músicas entrariam na peça. "As canções de Nara me acompanham há muito tempo. Eu já sabia as letras de uma boa parte do repertório e agora o desafio foi justamente escolher quais as músicas que entrariam na peça, já que ela produziu muito ao longo da vida e gravou sempre canções muito pertinentes e necessárias", conta a atriz.

A parceria entre Zezé e Miguel Falabella vem de longa data. Os dois se conhecem desde os anos 1970 e já dividiram o palco em diversas montagens: "Mephisto", "O Submarino", "Florbela Espanca - A Bela do Alentejo", "A Mentira" e "Os Monólogos da Vagina". A sintonia entre atriz e diretor, construída ao longo de décadas, se reflete neste trabalho que busca honrar a memória de uma artista cuja influência transcende a música.

Nara Leão nasceu em Vitória, no Espírito Santo, em 1942, mas construiu sua carreira no Rio. Filha de um advogado, cresceu imersa na cultura carioca e se tornou uma figura central nos movimentos musicais que definiram a identidade cultural brasileira. Sua morte, em 1989, deixou um vazio na música nacional, mas seu legado permanece vivo através de suas gravações e da admiração de gerações de artistas que reconhecem sua importância como precursora de uma forma de estar no mundo — artística e pessoalmente — marcada pela recusa de limites e convenções.

SERVIÇO

OS OLHOS DE NARA LEÃO

Teatro Clara Nunes - Shopping da Gávea (Rua Marquês de São Vicente, 52)

Até 26/4, sextas e sábados (20h) e domingos (19h)

Ingressos entre R$ 60 e R$ 160