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Uma velhinha sem filtro

Inspirado em suas avós, Dan Rocha criou Neide, uma idosa que não pede licença ou desculpas | Foto: Divulgação

'Minha Avó é Muito Louca', em cartaz no Cândido Mendes, traz um retrato o lugar dos idosos no mundo moderno

Tudo começou de forma despretensiosa, fruto de uma imitação. Em cartaz no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, "Minha Avó É Muito Louca" dá vida a Neide, uma senhora de 92 anos que transforma o palco em sala de estar e a plateia em confidente. O monólogo, escrito e interpretado por Dan Rocha com direção de Pedro Vasconcelos, apresenta uma personagem que não pede licença, não pede desculpa e muito menos baixa o volume — um retrato exagerado e reconhecível de muitas mulheres brasileiras na terceira idade.

Neide navega entre memórias familiares, sexo na terceira idade, tecnologia, religião, velórios, golpes de telefone e uma impaciência sem limites com o mundo moderno. O que começou como brincadeira virou dramaturgia. Durante um encontro, Vasconcelos viu Dan imitar uma de suas avós e sugeriu: "Você precisa fazer uma peça sobre isso." O ator resistiu inicialmente — era pessoal demais — mas compreendeu que aquela avó era também a avó de todo mundo e mergulhou no projeto.

A personagem nasce da fusão das duas avós de Dan com traços de sua mãe: gestos, frases, temperamentos e contradições que atravessam gerações. Mas o espetáculo carrega também um gesto maior de memória. Cinco anos após a morte de Paulo Gustavo, Dan assume em cena a influência decisiva do artista em sua formação. Fã desde a adolescência, o ator transformou o monólogo em homenagem à liberdade criativa e à autenticidade que marcaram a trajetória do humorista. "Paulo foi uma bússola artística que me ensinou que ser intenso, afetado e exagerado não é defeito, é potência", garante o ator.

A influência não se limita a Paulo Gustavo. Fábio Porchat também aparece como referência da adolescência do ator. "Eu imitava os dois na escola. Foi ali que entendi que o humor podia ser meu lugar de pertencimento", conta. Essa genealogia do humor direto, afetivo e sem filtros permeia toda a montagem.

Neide conduz o monólogo entre confissões inesperadas e interações diretas com a plateia, provando que envelhecer não significa parar de viver — significa rir de tudo, principalmente dos próprios problemas. O espetáculo celebra a liberdade de ser quem se é, independentemente da idade, um gesto de afirmação.

A produção também aposta em estratégia de formação de público com foco otiginal: quem adquirir um ingresso recebe outro, gratuitamente, para levar a avó.

SERVIÇO

MINHA AVÓ É MUITO LOUCA

Teatro Cândido Mendes (Rua Joana Angélica, 63 — Ipanema)

Até 30/4, às quintas-feiras (20h)

Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia)

Promoção: Compre um ingresso, leve avó gratuitamente

Classificação indicativa: Verificar com o teatro