Por: Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / TEATRO / HÉTERO SIGILO: Revelações LGBTQIAPN

Seguro em cena, Bernardo Dugin desenha uma interpretação repleta de sensibilidade | Foto: Nil Caniné/Divulgação

Ao sofrer preconceito dentro da igreja, ao lado de seu namorado, Bernardo Dugin processa o padre, e a partir daí idealiza e escreve seu monólogo "Hétero Sigilo", com dramaturgia esmerada e oportuna. O texto aborda a violência heteronormativa, na qual a diversidade sexual e de gêneros é marginalizada, cuja agressividade ainda perpetua-se, punindo condutas de toda comunidade LGBTQIAPN . Num dúplice posicionamento muito apropriado, o autor/ator transita com tranquilidade entre dor e humor, revelando uma construção social, onde homens gays anulam-se para conviverem e tornarem-se aceitos numa sociedade homofóbica. Fabrica uma reflexão fundamental sobre o apagamento da identidade.

João Fonseca encarrega-se para que tudo dialogue perfeitamente. Conduz com sabedoria seu intérprete - é um acerto o tom que o ator abre e fecha o espetáculo denunciando gírias discriminatórias, cria marcas inventivas, edifica imagens teatrais como na luta esportiva da personagem, além da delicada cena de amor no carro, com absoluta precisão. O diretor abrilhanta-se norteando apenas um artista, coisa rara em teatro.

Seguro, Bernardo Dugin desenha uma interpretação repleta de sensibilidade. Há uma sofisticação na maneira que desloca-se, com apoio de uma eficiente movimentação de Vanessa Garcia, e expõe as palavras. Nada é vulgar, mesmo quando relata narrativas sexuais, imprimindo graça e muitas vezes sofrimento, concomitantemente. Dono de sua própria história, o ator comove e diverte a audiência em frases como "A gente aprende a mentir antes mesmo de aprender a amar". Em momentos emociona-se na seu estado confessional.

A instalação de um espermatozoide aéreo, em total sintonia ao contexto, preenche o espaço cênico, além de cadeiras e mesa compondo o cenário potente de Nello Marrese. O figurino, do mesmo, é amarronzado, parecendo buscar uma ideia da obscuridade que encontra-se a personagem, com uma sobreposição clara libertando e aprofundando os sentimentos. A trilha e direção musical de Federico Puppi é perspicaz. Os efeitos luminares de Daniela Sanchez agrega poderosamente à encenação, um dos pontos altos do espetáculo, favorecendo dinâmica e estofo dramático. Elipsoidal de chão revela, magicamente, o soflagrante de ejaculação valorizando a proposta cênica.

Diante da segunda década do terceiro milênio ainda precisamos lutar para estagnar a intolerância. Vítima de bullying desde jovem, o artista apaixonara-se por teatro e dança, mas precisava fazer um pacto de silêncio, esconder seus desejos em detrimento à uma sociedade hipócrita e machista. Hoje Dugin orgulha-se de ser quem é e presenteia o público com um questionamento que vai muito além de seus percalços pessoais. "Hetero Sigilo" é mais um grito de liberdade e consciência para que possamos alcançar um mundo mais humano e igualitário.

SERVIÇO

HÉTERO SIGILO

Teatro Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176 - Ipanema)

Até 29/3, sexta e sábado (20h)

Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)