Milla Fernandez expõe limites entre performance artística e erótica no monólogo radical 'TIP (antes que me queimem eu mesma me atiro no fogo)'
Quando a pandemia fechou os teatros entre 2020 e 2021, milhares de artistas enfrentaram o mesmo dilema: como sobreviver sem renda? Para a atriz Milla Fernandez, a resposta veio de um lugar inesperado — o universo do entretenimento adulto online. Aquela experiência, vivida com o apoio da família, agora retorna à cena como matéria-prima de "TIP (antes que me queimem eu mesma me atiro no fogo)", um monólogo que transforma o relato pessoal em provocação teatral sobre performance, desejo e sobrevivência material.
A peça parte de um momento-limite: sem perspectivas profissionais e diante da urgência de garantir renda, Milla mergulhou no trabalho como camgirl, atendendo demandas de clientes anônimos em troca de gorjetas — as "tips" que batizam a montagem. O que poderia ser apenas um depoimento confessional se desdobra, porém, em questionamento amplo sobre a condição da mulher artista numa sociedade orientada pela imagem e pelo desejo alheio.
Em cena, a atriz não poupa a si mesma: transita entre humor ácido e exposição de vulnerabilidades, destrinchando situações cômicas, constrangedoras e dolorosas vividas tanto no universo pornô quanto na área do entretenimento tradicional. A dramaturgia propõe reflexão sobre os limites entre performance artística e performance erótica, entre autonomia e submissão aos desejos de uma plateia — seja ela composta por espectadores de teatro ou consumidores de conteúdo adulto.
"Na pandemia, sem ganhar um centavo como atriz, eu decidi molhar os pés no universo das camgirls. Acabei mergulhando de cabeça, me afogando num mar violento e só quando cheguei no fundo e pensei que ia morrer, descobri que dá pra respirar embaixo d'água", relata Milla em trecho que sintetiza a lógica da peça: o abismo como possibilidade.Para a atriz, o processo representou revisão radical de suas próprias certezas.
"Durante anos meu objetivo foi me sentir segura. Hoje eu quero me sentir cada vez mais confortável na insegurança", afirma. "Eu pensava que controlar tudo era sinônimo de força. Vivi uma vida inteira tentando estar preparada para quando o mundo caísse. Aí ele caiu e esmagou todas as verdades que eu tinha construído. Essa peça não é uma resposta, é uma pergunta que eu me faço todos os dias." O testemunho aponta para algo além da narrativa individual: a experiência de uma geração que precisou se reinventar rapidamente, sem manual de instruções, quando as estruturas que a sustentavam desabaram.
Rodrigo Portella reconhece a radicalidade da proposta. "Eu fico abismado com a coragem dela. Eu jamais me exporia dessa forma", confessa. "Apesar de que nem tudo corresponde à verdade (no que diz respeito aos fatos), essa é uma das peças mais 'de verdade' em que eu já estive envolvido." Para o encenador, a peça trata de "uma jovem atriz que se atira no abismo, uma mulher que se lança no fogo ao invés de fugir ou paralisar. Não é só um ato de coragem, mas de resiliência e reparação. Uma espécie de revisão do seu processo de constituição como pessoa e artista".
Portella, que em 2025 estreou uma adaptação de "Ensaio Sobre a Cegueira" com o Grupo Galpão e dirigiu o musical "Ray — Você Não Me Conhece" (vencedor do Prêmio APCA 2025 de Melhor Direção), faz escolhas cênicas radicais. A encenação, ensaiada em Barcelona com apoio da prefeitura local, aposta em recursos minimalistas: longos tapetes vermelhos funcionam como único elemento cenográfico, evocando simultaneamente glamour e artifício. Portella expõe a arquitetura teatral, retirando os tradicionais panos pretos da caixa cênica, explicitando ao público que está diante de uma construção, não de uma ilusão naturalista. A trilha sonora de Federico Puppi e Leo Bandeira tem caráter essencialmente percussivo, complementado pela própria Milla Fernandez, que toca sax durante o espetáculo. O figurino de Karen Brusttolin desvia-se dos clichês e dos fetiches.
Milla Fernandez, atriz de nacionalidade hispano-brasileira, tem formação técnica na Escola de Atores Wolf Maya e graduação em Interpretação Teatral pela CAL, concluída em 2019. Estreou no papel de protagonista do filme "Christabel", pelo qual recebeu indicação de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Pernambuco em 2018. Em 2021, filmou "Alice Mandou um Beijo", dirigido por Rodrigo Portella, além de colaborar com a dramaturgia dos espetáculos "Ficções" e "Ray - Você Não Me Conhece", ambos de Portella.
Ao transformar a própria fragilidade em potência criativa, Milla propõe ao público um pacto de honestidade radical sobre os impasses da sobrevivência material e simbólica de mulheres artistas no capitalismo contemporâneo.
SERVIÇO
TIP (ANTES QUE ME QUEIMEM EU MESMA ME ATIRO NO FOGO)
Teatro TotalEnergies - Sala Adolpho Bloch (Rua do Russel, 804 - Glória)
De 26/3 a 5/4, quinta a sábado (20h) e domingos (18h)
Ingressos a partir de R$ 50