'Menina Mojubá' leva narrativa que ressignifica figura da pombagira para oito cidades fluminenses com entrada gratuita
Depois de quase três anos circulando de forma independente, o espetáculo "Menina Mojubá" entra em um novo ciclo. A peça, que trabalha a figura da pombagira como ferramenta para desconstruir preconceitos em torno das religiões de matriz africana, inicia uma circulação pelo Sesc RJ com apresentações gratuitas em oito cidades. A estreia acontece nesta quinta (26) em São Gonçalo, às 19h.
O trajeto até aqui marca uma trajetória pouco comum em produções independentes. Marcela Treze, que assina a dramaturgia e atuação, e Gabriel Gama, na direção, começaram com apresentações para plateias pequenas — em alguns momentos, apenas cinco espectadores por sessão. Ao longo do tempo, a peça conquistou um público crescente, acumulando apresentações em cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Piauí e Rio Grande do Norte. O reconhecimento levou a montagem a um edital de circulação do Sesc, movimento que representa uma mudança significativa para um projeto que se manteve vivo sem grandes financiamentos culturais.
A peça trabalha a história de Menina, criança que cresceu nas ruas e conheceu as durezas da miséria, caminhos ilegais e a maldade humana. Mas carregava em si uma força ancestral que a fez rainha no mundo espiritual. Após seu falecimento, torna-se uma pombagira — entidade do universo das religiões de matriz africana — e busca garantir não só a própria sobrevivência, mas a de todos que são merecedores de seu amor.
A montagem propõe uma abordagem sensível sobre essas narrativas, frequentemente marginalizadas e demonizadas. "O espetáculo conta a história da pombagira de maneira empática, fazendo com que o pensamento imposto pela sociedade se transforme em um novo olhar sobre essas entidades, criando uma relação mais humana e menos mistificada", explica Marcela. A estratégia parte do princípio de que a falta de conhecimento sustenta a intolerância religiosa.
A experiência é construída através de elementos autênticos da ritualística de terreiro. Ao entrar no espaço, o público recebe uma cachaça branca para aguçar os sentidos enquanto o aroma de ervas e incensos preenche o ambiente. Durante a apresentação, músicos tocam atabaques para Exu, e há sete trocas de figurinos que dão vida e identidade aos personagens. Os sons vibrantes do tambor, os pontos cantados e a imersão sensorial transformam a experiência teatral em algo que vai além da representação convencional.
A peça acumula 17 prêmios e 24 indicações em festivais de teatro. Nas redes sociais, conquistou mais de 100 mil seguidores, número expressivo para uma produção independente. Para Marcela, a circulação representa mais que um avanço profissional. "Para nós, um grupo preto de axé, ter espaço para contar nossas histórias já é algo grande. Conseguir ser reconhecido, não só pelo trabalho artístico, mas pela beleza e força da trajetória de uma pombagira, é a sensação que estamos honrando a nossa ancestralidade", defende.
"Todos os dias antes de começar a apresentação, eu peço aos meus guias que entreguem aquilo que as pessoas buscam ali. Peço para que saiam encantados pela beleza de pombagira e certos que essa entidade transmite amor", argumenta.
SERVIÇO
MENINA MOJUBÁ
Circulação Sesc RJ: São Gonçalo: 26/3, às 19h; Ramos: 27/3), às 19h; Teresópolis: 28/3, às 19h30; Barra Mansa: 9/4; às 19h; Centro Cultural Sesc Quitandinha: 10/4, às 19h; Niterói (17/4), às 19; Campos: 15/5; às 19h; e Nova Iguaçu (6/6), às 19 | Entrada franca