'Visto' transforma vivências reais de professores e alunos periféricos em espetáculo poético sobre educação, identidade e resistência
Quando a autora e diretora Marcela Andrade começou a escrever "Visto", ela não precisou ir longe para encontrar o material dramático que sustenta o espetáculo. Bastou revisitar sua própria trajetória como professora de teatro em diferentes municípios do Rio de Janeiro — e os registros de tudo aquilo que viu, sentiu e testemunhou ao longo desse percurso. O resultado está em cartaz no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto e coloca em cena uma questão que devesse ser consensual: a educação artística como direito e real oportunidade de vida para jovens de regiões periféricas.
A montagem parte de um exercício coletivo de memória. Marcela Andrade dividiu o processo criativo com os atores Reinaldo Dutra e Uriel Dames, ambos oriundos de São Gonçalo. Os relatos pessoais dos dois artistas — também professores em espaços periféricos de cultura e educação — foram cruciais para construir a trama, entregando veracidade à montagem.
A história acompanha Docinho, jovem de personalidade artística e sensível que, em meio a repressões familiares e sociais, encontra o apoio sutil de um experiente professor de teatro. O personagem desvia de uma performance hegemônica de masculinidade — e é exatamente esse desvio que o coloca em rota de colisão com o entorno. A trama não evita os temas espinhosos: homofobia, pertencimento, oportunidades de estudo e trabalho, juventude e crescimento pessoal são fios que se entrelaçam na narrativa.
"Para escrever a peça, dei foco em registros de censuras familiares que testemunhei, a maior parte relacionada a moralismos comportamentais e questões de gênero e de sexualidade", conta Marcela Andrade. "Passei a refletir sobre limitações de percepção da arte como trabalho fundamental na constituição de sujeitos e cidadãos. Essas censuras impedem vivências e aumentam os 'buracos' estruturais de projetos culturais necessários à sociedade."
Reinaldo Dutra, de 41 anos, carrega na memória uma dessas experiências de resistência que a montagem evoca. Há cerca de dez anos, ele manteve um grupo de teatro na Lona Cultural Lidia Maria da Silva, no bairro Jardim Catarina, um dos mais populosos e violentos de São Gonçalo. O espaço estava em estado precário — goteiras no palco, falta de material de iluminação, estrutura deteriorada. Mas o grupo ocupou mesmo assim. "Em 2015, criei um coletivo teatral com meus ex-alunos no Jardim Catarina. Fizemos apresentações na Lona do bairro e oferecemos oficinas. O local estava bem precário, sujo, sem material de iluminação, com goteira no palco e por aí vai. Mas ocupamos e levamos o público. Foi uma experiência mesmo de teatro de guerrilha. Os comerciantes eram os apoiadores. A gente chegava, limpava, refazia as gambiarras seguras, apresentava e ocupava", recorda o ator. E o sucateamento dos aparelhos culturais é uma constante em regiões como essa.
Nascido em São Gonçalo, Uriel viveu de perto tanto a violência quanto a possibilidade de transformação que a arte oferece. "Meu encontro com o teatro é puro refazimento. Através dele, pude ver as tantas possibilidades que guarda a vida para além das mazelas do lugar onde nasci. Vi o tráfico de perto, passei parte da minha vida na favela, fui aliciado quando tinha 10 anos, mesma época em que o teatro surgiu na minha vida", conta o ator. "Hoje, com 26, fico feliz e excitado pelos caminhos que a vida com o teatro me apresenta e ainda vai me apresentar", completa.
Após a temporada de estreia no Sérgio Porto, o projeto prevê sessões em escolas e espaços de cultura em São Gonçalo, levando o espetáculo de volta ao território que o inspirou.
SERVIÇO
VISTO
Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto (Rua Visconde de Silva s/nº, ao lado do nº 292) | Até 29/3, sextas e sábados (19h) e domingos (18h) | Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)