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Talentosos e apagados

O elenco do musical 'Os irmãos Timótheo', que faz sua estreia nesta quinta no Teatro I do CCBB | Foto: Kessis Sena/Divulgação

Musical dirigido por Luiz Antonio Pilar resgata a trajetória de pintores precursores do Modernismo Brasileiro que foram esquecidos pela Semana de 22

A história brasileira é escrita com grandes espaços em branco, lacunas, apagamentos. Nomes brilhantes, contribuições geniais, vidas que moldaram a cultura nacional — tudo isso frequentemente desaparece nas páginas dos livros de história, vítima de um racismo estrutural que preferiu o esquecimento à justiça. É justamente esse vazio que o espetáculo Os Irmãos Timótheo da Costa vem preencher, trazendo à luz a potente trajetória de João (1879-1932) e Arthur (1882-1922), dois pintores que figuram entre os nomes mais destacados da cena artística brasileira nas duas primeiras décadas do século XX, mas que foram sistematicamente apagados do imaginário coletivo.

Dirigido por Luiz Antonio Pilar, com dramaturgia de Claudia Valli e direção musical de Muato, o musical estreia nesta quinta-feira (19) no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil, iniciando uma temporada que se estende até 19 de abril.

Em cena, a pesquisadora Irene, vivida por Jeniffer Dias empenha-se em escrever uma peça sobre os irmãos Timótheo da Costa. Ao mergulhar na pesquisa, ela descobre que, como tantos outros personagens negros da história brasileira, eles foram praticamente apagados—há pouquíssimo material disponível sobre suas vidas, apenas registros fragmentados focados em suas obras, não em suas existências. Essa lacuna documental torna-se, paradoxalmente, o ponto de partida criativo: realidade e ficção se entrelaçam enquanto Irene desvenda quem foram realmente esses homens.

O que emerge dessa investigação é uma narrativa perturbadora sobre a realidade do negro pós-abolição na então capital federal. Os irmãos Timótheo da Costa enfrentaram o preconceito implacável da Belle Époque carioca, a hipocrisia de uma sociedade que se proclamava moderna enquanto mantinha estruturas profundamente racistas. Ambos, com um intervalo de dez anos, morreram internos no Hospital dos Alienados do Rio de Janeiro, diagnosticados com demência paralítica—uma instituição que também abrigou o escritor Lima Barreto e era dirigida pelo Dr. Juliano Moreira, médico negro pioneiro da psiquiatria no Brasil que combatia ativamente o racismo científico.

"Somos até capazes de superar o ódio, o desprezo, a violência, mas o esquecimento é insuperável, pois ele nos trata como se nunca tivéssemos sido", diz a dramaturga Claudia Valli, com 39 anos de carreira em trabalhos para a Rede Globo, Record e diversos canais especializados. O apagamento funciona como uma forma de negação existencial — você não é porque não merece ser, porque não faz parte de "nós".

Os irmãos Timótheo da Costa eram precursores do Modernismo Brasileiro, mas foram esquecidos justamente pela Semana de 22, o evento que deveria celebrar a renovação artística nacional. Gradualmente, desapareceram da História da Arte Brasileira. O mesmo ocorreu com seu avô, o maestro Henrique Alves de Mesquita, que passou de músico de maior destaque nacional e internacional ao mais absoluto esquecimento.

A trilha sonora do espetáculo traz as composições de Mesquita, executadas ao vivo por uma orquestra. Algumas receberão letras inéditas e serão cantadas em cena, enquanto outras funcionarão como trilha sonora instrumental. Muato, diretor musical e vencedor do Prêmio Shell 2024 pela direção musical de "Pelada - A Hora da Gaymada", assina essa direção musical.

O elenco complementa a força narrativa: Lucas da Purificação (série "Impuros", Disney Plus), Luciano Quirino (novela "Êta, mundo melhor!"), Pablo Áscoli (que interpretou César Camargo Mariano em "Elis, o musical") e Sérgio Kauffmann (novela "Garota do momento", 2024/2025) compõem um time que traz densidade interpretativa à investigação de Irene.

"Percebi que trazer para o palco a história dessas pessoas que me inspiraram, de certa maneira também compartilho com elas tudo aquilo que eu já passei", afirma o diretor Luiz Antonio Pilar, que já retratou histórias de grandes artistas como Candeia, Ataulfo Alves e Leci Brandão, tanto no teatro quanto na TV e cinema. "A história que vamos contar é uma investigação. Vamos descobrir quem foram os irmãos Timótheo da Costa, além do apagamento", vaticina Pilar.

O espetáculo estabelece uma ponte entre o final do século XIX e o século XXI, mostrando como a realidade de apagamento e racismo que marcou a vida dos irmãos Timótheo da Costa permanece presente e intensa na sociedade contemporânea. Muitos homens e mulheres pretos "surtaram ao vislumbrar o 'não futuro' pela frente", como observa Valli. Sem chances reais de ascensão, a única perspectiva era lotar hospícios ou presídios. "O sucesso não supera o racismo", sentencia a dramaturga.

SERVIÇO

OS IRMÃOS TIMÓTHEO DA COSTA

Teatro I do CCBB (Rua Primeiro de Março, 66, Centro)

De 19/3 a 19/4, quintas, sextas, sábados e segundas (19h) | domingos (18h).

Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)