Por: por Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / TEATRO / O PAI: A potência de um ator

Com sua emissão vocal poderosa como de costume, Fulvio Stefanini saboreia cada palavra oferecendo uma verdade cênica irrepreensível na montagem brasileira de 'O Pai' | Foto: Divulgação

A peça francesa, que estreou em 2012 em Paris, arrematou prêmios em produções mundo afora, como Londres e Nova Iorque. O próprio autor aventurou-se como diretor no filme "Meu Pai", que rendeu Oscars e Baftas de Melhor Ator para Anthony Hopkins e Melhor Roteiro Adaptado, além da indicação de Melhor Filme. E na trilha de sucesso, a montagem brasileira já agraciou Fulvio Stefanini como Melhor Ator nos Prêmios Shell e Bibi Ferreira, em São Paulo. O Alzheimer é um tema universal que emociona, sobretudo quando é abordado com sapiência, e a dramaturgia de Florian Zeller possui uma carpintaria excepcional.

A narrativa impõe-se pela perspectiva de André, um idoso aos 80 anos, divertido, a partir da desorientação pela perda de memória. Desde então, um mosaico de emoções evidencia confusões e embates familiares.

Com sabedoria, o diretor Léo Stefanini institui um jogo teatral afinado, com limpeza cênica, pausas dramáticas bem posicionadas, além de imputar ao espetáculo uma leveza, atenuando o conteúdo, numa dialética primorosa. O humor nasce da situação tragicômica do protagonista e em momento nenhum reduz a dramaticidade.

Fulvio Stefanini, com sua emissão vocal poderosa como de costume, saboreia cada palavra - mesmo quando joga o texto fora - oferecendo-nos uma verdade cênica irrepreensível, como se a personagem ganhasse vida e pertencesse ao nosso mundo familiar. É impressionante o desenho que o intérprete atribui ao papel quando está em casa e na sequência, ao ser colocado na clínica, onde sua máscara e humor modificam-se, com infinita tristeza. Ao entrar em desespero: "Eu quero minha mãe", o ator clarifica que as memórias recentes estão apagando, mas que o passado está alí, mais presente do que nunca, numa das cenas mais tocantes. Há filigranas que só um ator desse quilate pode proporcionar. Carol Mariottini, Fulvio Stefanini Filho, Lara Córdula e Léo Stefanini compõem um elenco coeso, com destaque para Déo Patricio, que trafega com elegância, além de conduzir talentosamente o bife, pelo qual relata enforcar o pai em pesadelo.

André Cortez ambienta um cenário instigante, com uma estante que desdobra-se na casa do protagonista e na clínica, com poucos elementos, o que conduz ao desaparecimento memorial da personagem central. Há um signo revelado por um pequeno relógio, haja vista uma indagação sobre as horas. Os figurinos de Lelê Barbieri são cotidianos. Diego Cortez ilumina com delicadeza, utilizando contras sombreando as passagens de cena, abusando dos blackouts, numa perfeita alusão à interrupção mental do carismático André. Um tic-tac do relógio remete o tempo que passou, angustiando a audiência propositadamente, na trilha adequada de Raul Teixeira e Renato Navarro.

"O Pai" está comemorando os 70 anos da atuação proeminente de um artista experiente. O espetáculo é valoroso, mas o público deve comparecer, sobretudo, pela maestria de Fulvio Stefanini.

SERVIÇO

O PAI

Teatro TotalEnergies - Sala Adolpho Bloch (Rua do Russel, 804 - Glória)

Até 22/3, às sextas e sábados (20h) e domingos (17h)

Ingressos: Plateia Central - R$ 150 e R$ 75 (meia) | plateia lateral - R$ 50 e R$ 25 (meia)