Por: Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / TEATRO / ADORÁVEL TRAPALHÃO, O MUSICAL: O resgate da inocência

A encenação de José Possi Neto em 'Adorável Trapalhão' flutua sem tropeços | Foto: Melina Knolow/Divulgação

Numa idealização do ator Rafael Aragão, a montagem impecável, dirigida por Guilherme Logullo e Ciro Sales, sustenta um arsenal de talentos. O texto de Marilia Toledo utiliza a memória, realça a trajetória de um ícone do humor no nosso audiovisual, o ator/palhaço Renato Aragão, insere personagens em épocas diferentes, folgando a cronologia, institui que atores possam narrar e representar concomitantemente, revelando o jogo teatral. A narrativa passeia pelo o início da carreira artística, a mudança do Ceará para o Rio, passagens pelas TVs Excelsior, Record, Tupi e Globo, numa costura afetiva, divertida, desvelando a inocência de outrora.

A encenação de José Possi Neto é destaque para que o espetáculo flua sem tropeço. Tudo funciona poderosamente. O diretor equaliza seu elenco, impõe uma plasticidade fora da curva - como sempre - armando para que todos os elementos possam dialogar e unificarem-se. Salienta o universo ingênuo do homenageado, aparentando que estamos diante de uma tela, mas com extrema teatralidade. Vale ressaltar que só os mestres da cena alcançam uma homogeneidade em suas obras. É como estar diante de um Caravaggio, em que movimento e beleza denunciam a vida.

Rafael abrilhanta-se durante todo o tempo, com timbre, corporeidade e timing perfeitos que assemelham-se ao notabilizado - que participa ao final, além de um carisma que impressiona, características pelas quais atribuem ao ator um estado profissional de primeiro time. Outros destaques são o Zacarias de Vicenth Delgado, que imprime peculiaridades do original; e Miguel Venerabile, que vive Renato na infância, com graciosidade, além de voz afinada. Thadeu Torres e Rupa Figueira - com ótima voz, ajustam-se com talento ao quarteto. Alvinho de Pádua, Arízio Magalhães, Bernardo Marcelino, Bruno Kimura, Bruno Ospedal, João Cortins, Larissa Travassos, Letícia Mamede, Lucas Bocalon, Marcelo Góes, Mari Marques, Paulão do Vraah - com performance marcante, Vitor Veiga e Yasmin Calbo completam o elenco da melhor qualidade.

A cenografia de Marco Lima emoldura a caixa cênica com estrutura branca, pernas que surgem do urdimento simbolizando o circo, dinamiza com construções que remetem-nos aos programas de TV, telões para situar a história, além de uma rotunda branca, facilitando a exploração inventiva, pela qual Wagner Freire enche o palco de magia. Numa indumentária colorida, em sintonia ao contexto, Theodoro Cochrane adiciona humor com figurinos exuberantes. Alonso Barros cria suas coreografias nas quais tudo parece ser único, tamanha a afinação. Anderson Bueno compreende a proposta e acerta no visagismo.

"Adorável Trapalhão - O Musical" carrega em poesia e resgata uma inocência que as transformações, das quais não podemos escapar endurecem-nos, até perdermos a sensação de que a vida pode ser leve. Corram ao teatro para obterem o gosto da delicadeza!

SERVIÇO

ADORÁVEL TRAPALHÃO

Teatro Sesc Ginástico (Rua Araújo Porto Alegre, 70)

Até 19/4, qui e sex (19h) sáb e dom (17h) | R$ 60, R$ 30 (meia), R$ 15 (associado Sesc) e grátis (PCG)