Grupo mineiro Maria Cutia chega ao Rio com um 'Auto da Compadecida' que mistura Suassuna, tropicalismo e a tragédia de Brumadinho
João Grilo nunca envelheceu. Desde que Ariano Suassuna o colocou no mundo, em 1955, esse nordestino miúdo e malandro segue vivo nos palcos brasileiros como se cada nova geração de brasileiros precisasse reinventá-lo para entender algo sobre si mesma. É o que faz o Grupo Maria Cutia nesta encenação assinada por Gabriel Villela que revisita o texto como uma comédia musical de olhar atento sobre o Brasil de hoje, com direito a lama nos figurinos e canções tropicalistas na boca dos atores. O espetáculo estreia nesta quinta-feira (5) na Arena do Sesc Copacabana, marcando a primeira visita do grupo mineiro à cidade.
A parceria entre o Grupo Maria Cutia, fundado em Belo Horizonte em 2006, e Villela, um dos diretores mais inventivos do teatro brasileiro nos anos 1990, resulta numa montagem que passa ao largo da reverência ao mestre paraibano. A fidelidade ao texto de Suassuna está lá, mas a montagem o usa como matéria-prima para uma leitura que introduz referências ao comportamento político e social contemporâneo sem medo de assumi-las. "Apesar de Suassuna ter escrito a peça há mais de 70 anos, o Auto é uma história absolutamente atual. E a nossa adaptação torna a peça ainda mais contemporânea porque introduzimos no texto acontecimentos de agora, políticos, de comportamento, da nossa sociedade. Isso traz sempre a ideia de que a peça tem uma importância narrativa pra hoje — e também conecta o público mais ainda com a história", afirma Leonardo Rocha, ator do grupo.
O enredo parte de onde sempre partiu: as aventuras de Chicó e João Grilo começam com o enterro e o testamento do cachorro do Padeiro e de sua Mulher, e acabam numa epopeia milagrosa no sertão envolvendo o clero, o cangaço, Jesus, Maria e o Diabo. A estrutura permanece, mas o tom que Villela imprime é o da comédia que não pede licença — humor ácido, estética exuberante, uma teatralidade barroca que é a marca registrada do diretor desde trabalhos como "Romeu e Julieta", com o Grupo Galpão, e que aqui ganha um elemento novo e perturbador: a lama. "Vem na nossa pele a tragédia anunciada de Brumadinho e tantas outras que podem acontecer", explica o próprio Villela. Esse tom terroso da lama atravessa os figurinos — em especial os dos dois protagonistas — e empresta à beleza visual um peso que o espetáculo não deixa o público esquecer.
A trilha, executada ao vivo pelos próprios atores, inclui Caetano Veloso, Maria Bethânia, Sergio Sampaio e Zeca Baleiro dividem espaço em cena com Suassuna numa combinação que aposta no tropicalismo como chave de leitura para a obra. "Tocamos e cantamos várias canções brasileiras inspiradas no carnaval e no tropicalismo. A ironia que já existe no texto original é carregada na tinta e o que as pessoas vão assistir é uma peça que reflete o momento atual do Brasil, com suas controvérsias e peculiaridades que fazem de nosso país esse caldeirão singular de culturas", resume Leonardo Rocha.
Nesse aspecto, o Maria Cutia aplica na prática uma de suas frentes de pesquisa mais consistentes: o conceito de música-em-cena, que o grupo desenvolve há anos e que consiste em integrar dramaturgia e canção de modo orgânico.
Desde a estreia na Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto (SP), em 2019, a montagem já foi vista por mais de 20 mil espectadores e percorreu festivais em diferentes regiões do país, além de uma temporada no Sesc Pompeia, em São Paulo. Fundado em 2006, o grupo tem sede própria em Belo Horizonte, a Toca da Cutia, de onde parte para praças, parques e palcos do Brasil e do exterior — já foram seis países, 24 estados, mais de 250 cidades e um público acumulado superior a 800 mil pessoas.
Com mais de 45 espetáculos na carreira, Gabriel Vilella construiu ao longo de décadas uma linguagem cênica em que o exagero não é defeito. A riqueza barroca de seus cenários e figurinos expressa a ideia de que o Brasil é excesso, contradição e cor, e que qualquer tentativa de representá-lo com economia de meios trai o que há de essencial em nós. Nessa montagem, essa visão encontra um parceiro à altura no repertório do Maria Cutia — um grupo que, desde o início, escolheu o popular como linguagem.
SERVIÇO
AUTO DA COMPADECIDA
Arena do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana)
De 5 a 29/2, de quinta a sábado (20h) e domingos (18h)
Ingressos: R$ 30, R$ 15 (meia) e R$ 10 (associado Sesc)