Em nova montagem de solo premiado, Edwin Luisi volta a dar vida a Charlotte von Mahlsdorf, mulher trans que sobreviveu ao nazismo e à Alemanha Oriental recusando-se a deixar de existir
Lothar Berfelde nasceu em 1928 na Alemanha, filho de um militante nazista que sonhava transformá-lo em soldado. Não funcionou. Charlotte von Mahlsdorf — o nome que ela mesma escolheu, inspirado na região onde abriria seu museu — atravessou os extremos do Terceiro Reich e da República Democrática Alemã (a extinta Alemanha Oriental) e a violência rotineira de um século que insistia em apagá-la. Resistiu. Colecionou relógios, espelhos e roupas de casas destruídas pela guerra. Abriu um museu. Comandou um clube LGBTQIAPN no porão do mesmo prédio. Morreu em 2002, aos 74 anos, durante uma visita a Berlim. Em sua lápide, gravaram o nome que ela nunca usou.
É essa vida — densa, contraditória e improvável — que Edwin Luisi carrega sozinho sobre o palco do Teatro Poeira, a partir desta quinta-feira (5), na nova montagem de "Eu Sou Minha Própria Mulher", com direção de Herson Capri. O texto é do dramaturgo estadunidense Doug Wright, vencedor do Prêmio Pulitzer e do Tony por "I Am My Own Wife", construído a partir de entrevistas que o próprio Wright conduziu com Charlotte. A peça começa exatamente aí: com o autor sendo convocado a escrever essa história, relutando, cedendo ao fascínio. Os encontros entre os dois são intercalados por memórias e novos acontecimentos que vão transformando progressivamente o olhar de Doug sobre a mulher que decidiu retratar.
O desafio imposto ao ator é enorme: dar voz a mais de vinte personagens, nenhum artifício cênico de amparo, apenas interpretação. Edwin dá voz ao pai de Charlotte, a seu amante, a oficiais nazistas, ao próprio Wright. "Tive de buscar vozes, tipos, tiques, características próprias de cada um", conta o ator.
Esta não é uma reapresentação da versão anterior — é uma releitura. Equipe parcialmente renovada, texto atualizado, e um ator que chegou a esse material em outro momento da vida. "Vejo o texto hoje muito mais atual do que na época, porque fala de identidade, resistência, da liberdade de se ser o que se é. Hoje tem muito mais campo pra esse tipo de narrativa, é uma pauta importantíssima em qualquer lugar do mundo. Na época em que montei, essas coisas ainda estavam muito diluídas", reflete Luisi, que acumula décadas de teatro e televisão — ficou mundialmente conhecido como o galã Álvaro de "Escrava Isaura" —, e reúne nesse trabalho prêmios Shell, Mambembe, APCA e o Faz Diferença.
A atualidade da peça não depende de releituras forçadas. Charlotte não é apresentada como heroína, mas simplesmente como alguém que escolheu existir plenamente quando o mundo insistia em negá-la, e que carregou contradições reais: foi internada em clínica psiquiátrica após matar o próprio pai, que a forçara a ingressar na Juventude Hitlerista em 1942; foi libertada com a queda do Reich, mas continuou vivendo sob o peso de leis que criminalizavam sua existência. Sobreviveu construindo, literalmente, um museu a partir dos escombros — objetos recolhidos de casas bombardeadas, memória salva do que foi destruído. A partir dos anos 1970, o espaço virou ponto de encontro da comunidade homossexual da Alemanha Oriental.
Doug Wright, que também assina o roteiro do filme "The Burial" (Amazon Prime, 2023) e os libretos dos musicais "A Pequena Sereia" e "War Paint" na Broadway, construiu para Charlotte uma dramaturgia cuja grandeza está no fato de que a personagem não precisa ser um poço de virtudes, ou mesmo uma vítima. Apenas ela mesma.
A temática do espetáculo segue tão urgente quanto em 1928, quando Lothar Berfelde nasceu numa Alemanha que não sabia o que fazer com ela. E continua assim.
SERVIÇO
EU SOU MINHA PRÓRIA MULHER
Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104, Botafogo)
De 5/3 a 26/4, de quinta a sábado (20h) e domingos (19h)
Ingressos: R$ 140 e R$ 70 (meia)