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Ouro nas fraturas do tempo

O grupo Lume Teatro, que já se apresentou em mais de 30 países ao longo de mais de quatro décadas, tem no espetáculo uma síntese de sua metodologia de pesquisa cênica | Foto: Tina Coelho/Divulgação

O Grupo Lume Teatro retorna ao Rio após uma década com espetáculo que transforma memória, esquecimento e política em matéria cênica

Vem do japão uma prática milenar que repara cerâmicas quebradas com ouro, tornando a peça restaurada mais valiosa do que era antes da fratura. É dessa filosofia, o kintsugi, que o Grupo Lume Teatro parte para construir "Kintsugi, 100 memórias" que estreia nesta quarta (4) no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB).

O espetáculo é dirigido pelo argentino Emilio García Wehbi, performer e artista visual do grupo El Periférico de Objetos, conhecido internacionalmente por suas investigações no cruzamento entre linguagens cênicas. A dramaturgia é assinada pelo carioca Pedro Kosovski, vencedor dos principais prêmios de artes cênicas do Brasil. Juntos, Wehbi e Kosovski costuraram uma obra autoficcional e fragmentária que parte do Mal de Alzheimer como metáfora para investigar o esquecimento como gesto político — uma arqueologia das memórias que o Brasil preferiria deixar quietas.

"O espetáculo não busca uma narrativa linear ou bucólica. Pelo contrário, é um exercício do presente: um reencontro com a dor como ato de superação e uma tentativa de corrigir o futuro ao encarar as fissuras do passado", define Wehbi.

O processo criativo teve início em 2016, quando o país atravessava um momento de intensa turbulência democrática. Não por acaso, a data ressoa no próprio espetáculo. "O mal de Alzheimer foi o disparador do processo, que cobrou da equipe de criação ir além da doença, porque esta é incurável e irreparável. As dinâmicas sociais e políticas são passíveis de interferência, de restauração, de correção de rumo. Foi para este norte que miramos nossa bússola durante o processo de criação, iniciado em 2016, quando o país atravessava um momento sombrio e nossa frágil democracia — resgatada em 1985, ano de criação, coincidentemente, do Lume — era percebida à mercê de uma ruptura", afirma Kosovski.

Para dar corpo à pesquisa, os atores passaram meses visitando a ala neurológica do Hospital das Clínicas da Unicamp, onde conversaram com especialistas, familiares e pacientes com demência. Em outro momento, já com o espetáculo montado, o grupo viajou para Angostura, na Colômbia, para aprofundar os estudos sobre a temática. No palco, 100 objetos e referências concretas servem de suporte para as memórias dos intérpretes, do grupo e da história do Brasil — da ditadura à atualidade: relíquias de família, fotografias, diários, uma coleção de moedas, revistas e peças de roupa. A peça se abre com um brinde seguido do estilhaçamento de um vaso de cerâmica, ação que coloca imediatamente a questão central da montagem: o que fazer com os fragmentos do que se quebrou?

"A concepção do espetáculo parte da premissa do reconhecimento das fraturas, das rupturas inexoráveis da existência, sejam elas individuais ou coletivas. Investigamos o esquecimento por opção: aquelas sombras que queremos deixar quietas; vasculhamos também o apagamento da memória como projeto e como isso se reflete na irracionalidade política do nosso país. Reconhecimento e acolhimento são os primeiros passos para viabilizar a reparação, a reconstrução daquilo que um dia foi íntegro", opina o ator Jesser de Souza, integrante do elenco.

Sua colega Ana Cristina Colla aprofunda essa leitura. "As memórias apresentadas buscam revelar cicatrizes, escancarar fissuras, expor as imperfeições que nos constituem, promovendo, ao mesmo tempo, sua reparação, iluminando-as, buscando acolhê-las e valorizá-las, compreendendo-as como fundantes de quem somos, como indivíduos, como coletivo, como país."

A trilha sonora do espetáculo, assinada por Janete El Haouli e José Augusto Mannis, oferece uma camada dramatúrgica independente. Inspirados pela comprovação científica de que a música consegue contornar o hipocampo em pacientes com Alzheimer e acessar memórias perdidas, os músicos criaram o que denominam um "bordado sonoro" a partir de releituras dos Noturnos de Chopin. "Os pacientes acometidos com a doença perdem a capacidade de acessar as memórias; é como se o caminho que liga o desejo de lembrar e a lembrança propriamente fosse subtraído. As músicas antigas e conhecidas driblam o hipocampo, ativando áreas emocionais e motoras, estimulando áreas cerebrais preservadas, promovendo o resgate da identidade e conduzindo os pacientes a uma reconexão pela via do afeto e da sensibilidade", explicam os criadores da trilha. "A música e a projeção acústica buscam criar pontes entre elenco e cada espectador, entre a autoficção apresentada e as memórias eventualmente revisitadas, criando um vapor de som com a potência de acordar, justamente, memórias", completa o ator Renato Ferracini.

Antes da temporada carioca, o espetáculo passou por São Paulo, pelo CCBB Belo Horizonte e percorreu os principais festivais de teatro do Brasil, além de temporadas em Portugal e Costa Rica. Após o Rio, segue para o CCBB Brasília.

Para Kosovski, "Kintsugi, 100 memórias" é, em última instância, um gesto de resistência: "A peça propõe uma utopia do mover-se, não estagnar. A vida é movimento. A arte é transformadora, e é nisso que o Lume acredita, buscando promover transformações durante todos esses anos através de suas obras."

SERVIÇO

KINTSUGI, 100 MEMÓRIAS

Teatro III CCBB RJ (Rua Primeiro de Março, 66 — Centro)

De 4 a 29/3, de quarta a sábado (19h) e domingos (18h)

Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)