Por: Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / TEATRO / CREDORES: A preservação da qualidade

'Credores', de Strindberg, é mais um dos acertos do teatro de repertório do Grupo Tapa | Foto: Ronaldo Gutierrez/Divulgação

O teatro estrutura-se na repetição e a manutenção de um grupo que não abre mão de depurar a cena, de presentear à audiência com a melhor dramaturgia mundial, é um alento para os amantes dessa arte milenar. Há 46 anos o Grupo Tapa - de origem carioca, desde 1986 em São Paulo - investe no teatro de repertório contabilizando inúmeros espetáculos da maior relevância para a produção cultural brasileira. Enquanto companhias teatrais deterioram-se, o individualismo e a economia vem corroborando para montagens solo, focadas muitas vezes num valor autobiográfico, ou ainda com carpintarias dramatúrgicas inócuas, o Tapa permanece na mesma linha criativa de sempre.

Capitaneado pelo diretor Eduardo Tolentino de Araújo, um dos melhores, fez do seu grupo um dos mais longevos coletivos teatrais do país, sedimentando-se pela confluência de autores como Willian Shakespeare, Anton Tchekhov, Bernard Shaw, Tennessee Williams, Oscar Wilde, Luigi Pirandello, Nelson Rodrigues, entre outros. Jamais esqueço a força cênica de "Rastro Atrás", de Jorge Andrade, outra pérola do grupo.

August Strindberg, um dos precursores do teatro moderno mundial, impressiona com a atualidade de seu "Credores", escrito no final do século XIX. Num embate entre um triângulo amoroso, o texto descava a discussão conjugal, os desejos reprimidos, o acerto de contas, a persuasão, a vingança. E a encenação de Tolentino abarca com fluidez toda a tensão psicológica, na qual o dramaturgo sueco esmerou-se. O diretor desenha com extrema limpeza, equaliza seu elenco, debruçando-se na palavra como força motriz do espetáculo, elucubra sua viagem cênica tomando liberdades em acrescentar novos espaços, uma música brasileira entoada pela atriz, cria uma quarta personagem, servindo-lhe como contrarregra e sedutor do papel feminino, além de desvelar o ato teatral aproximando o público com uma luz precisa - e delicada em outros momentos - do próprio grupo.

O impacto dialogal é fruto de um elenco afinado. André Garolli passeia com sabedoria entre a indução de seu Gustavo enquanto finge ser amigo de Adolfo, ganhando ainda mais força ao deparar-se com sua ex-mulher. Bruno Barchesi conduz com sensibilidade a fragilidade de seu Adolfo, reverberando angústia. Sandra Corveloni imprime charme e elegância à sua Tekla, costurando com eficiência seu jogo com as personagens masculinas. E Felipe Souza possui uma corporalidade marcante, executando com rigor o que lhe foi atribuído.

Cenário, figurino e luz, do grupo, dialogam adequadamente. Com funcionalidade, módulos de madeira compõem uma sauna e espelhos são articulados de modo que atores sejam revelados por vários ângulos, além de desmistificar o realismo evidenciando a plateia, ampliando a teatralidade. Tolentino já havia usado esse recurso no seu "Vestido de Noiva", de Nelson Rodrigues. Os figurinos, em tonalidade clara, contrapõem e refletem todo o balaio de sujeira que as personagens percorrem. "Credores" é mais um acerto do Tapa!

SERVIÇO

CREDORES

Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104, Botafogo)

Até 8/3, de quinta a sábado (20h) e domingos (19h)

Ingressos: R$ 80 e R$ 40 (meia)