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Quando o povo está nos bastidores do poder

Inbspirada em 'Coriolano', de Shakespearte, a dramaturgia de 'Cão' é uma fábula contemeporânnea atravessada por realismo fantástico, comicidade e música | Foto: Rogério Alves/Divulgação

Aluta de classes costuma acontecer longe dos palcos, mas em "Cão" ela acontece exatamente ali, entre camarins, cordas, refletores e ordens incompreensíveis. A primeira parceria entre os premiados grupos nordestinos Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, e Magiluth, de Pernambuco, segue em cartaz no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil.

A montagem nasceu de cinco residências artísticas realizadas entre Natal, Recife e Rio, sob direção de Fernando Yamamoto e Luiz Fernando Marques, o Lubi. Embora inspirada na tragédia shakespeariana "Coriolano", "Cão" não pretende adaptá-la. O que se vê em cena é uma fábula contemporânea atravessada por realismo fantástico, comicidade e música — marcas que se entrelaçam nas linguagens dos dois grupos.

"A gente parte de Shakespeare, mas usando só o que nos interessa: o conflito de classes, a insatisfação do povo, a manipulação política e o jogo de forças que recai sempre sobre quem trabalha. O processo da montagem foi muito natural. Fomos descobrindo, juntos, onde estavam as fraturas do presente, e daí nasceu "Cão". É uma obra que reflete profundamente a poética dos dois grupos, esse encontro tão desejado há tantos anos", afirma Yamamoto, que também assina a dramaturgia ao lado de Giordano Castro.

A trama acompanha um grupo de trabalhadores de eventos — técnicos, cenógrafos, produtores, mestres de cerimônia e seguranças — que, após dias preparando um teatro para a posse de um recém-eleito líder em uma jovem república, recebe uma notícia que desmonta toda a cerimônia: a morte do novo governante.

É nesse momento que a montagem revela sua principal habilidade: transformar o caos em comicidade. Abre-se um sem-fim de situações rocambolescas, desdobramentos absurdos e peripécias hilárias que incluem confusões políticas, protocolos impossíveis, desmandos surrealistas e a urgência de reorganizar tudo em poucas horas. O humor, aqui, não alivia a crítica — ele a expõe. Cada atropelo, cada falha de comunicação, cada ordem descabida evidencia a precarização que atravessa as relações de trabalho no Brasil contemporâneo.

Para Yamamoto, o espetáculo constrói um riso que, ao mesmo tempo em que diverte, faz refletir sobre temas urgentes, especialmente as relações de trabalho. A perspectiva é compartilhada por Lubi, que aponta para a centralidade do trabalhador tanto em Shakespeare quanto na realidade latino-americana. "Quando partimos para investigar Coriolano, foi ficando claro que o que nos movia era o olhar para quem trabalha. Tanto no texto original quanto na realidade latino-americana, são sempre essas figuras que sustentam tudo, organizam tudo, reorganizam tudo, e são justamente as mais precarizadas", observa o diretor. Ele também aponta para a dimensão autorreferencial do espetáculo: "A cultura é um campo em que a precarização aparece de maneira gritante. E é justamente nesse campo que seguimos criando, resistindo e nos reinventando."

"Cão" também revela ao público o movimento dos bastidores e as urgências de quem precisa fazer tudo acontecer e, ainda assim, inventar poesia em meio ao caos — o que confere ao espetáculo uma camada metalinguística que potencializa sua crítica. Entre tropeços, correrias e confusões, a peça celebra aquilo que o teatro tem de mais vivo: rir da própria tragédia e seguir em frente, mesmo quando o protagonista morre antes mesmo de entrar em cena.

Em cena, quem dá corpo a essa engrenagem é o elenco composto por Caju Dantas, Diogo Spinelli, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Lucas Torres, Mário Sergio Cabral, Olivia León e Paula Queiroz. A equipe técnica inclui cenário de Fernando Yamamoto, Luiz Fernando Marques e Rogério Ferraz, direção de produção de Talita Yohana, figurino de Maria Esther, iluminação de Ronaldo Costa e dramaturgia sonora de Ernani Maletta.

SERVIÇO

CÃO

Teatro I do CCBB RJ (Rua Primeiro de Março, 66 - Centro)

Até 15/3, de quinta a sábado (19h) e domingo (18h)

Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)