Por: Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / TEATRO / FAFÁ DE BELÉM, O MUSICAL: Brasilidade à flor dapele

Lucinha Lins dá vida a Fafá de Belém em uma das fases de vida da cantora | Foto: Nil Caniné/Divulgação

Num ideário assertivo do produtor Jô Santana, "Fafá de Belém, o Musical" reverbera um status providencial para o teatro musical brasileiro. Vai além de revelar os meandros do ofício de uma das maiores cantoras do país, mas através de seus valores identitários, regala à audiência uma brasilidade fora do comum. Esquivando-se da cronologia, Eduardo Rieche e Gustavo GasparanI abarcam o talento e vocação da estrela brasileira, oriunda do Pará, exibindo a pluralidade do ambiente nortista: a floresta Amazônica, o rio Amazonas, os povos originários, o Círio de Nazaré em Belém - uma das mais poderosas procissões pelo mundo e Patrimônio Cultural da Humanidade, o Carimbó, o Boi-bumbá, trafegando por um universo mítico, da colonização à contemporaneidade.

A memória funciona como uma espinha dorsal para conduzir a narrativa e os autores abrilhantam-se na elaboração das cenas, pelas quais instaura-se 3 planos: o presente, a infância e o passado que agrupa toda a trajetória artística de uma das vozes mais populares do Brasil.

Experiente e engenhoso, Gasparani norteia sua gramática cênica, instigando ritmo adequado ao elenco, concedendo um espetáculo ágil, sem abrir mão da poesia que sua própria dramaturgia lhe propõe.

O elenco é liderado por Lucinha Lins, que domina a cena com seu carisma arrebatador, alternando-se entre o papel de Fafá e de sua mãe, enquanto Laura Saab - neta da homenageada - vive sua avó na tenra idade. No entanto, é na interpretação de Helga Nemetik que reconhecemos uma semelhança fascinante de Fafá. Nemetik é dessas cantrizes fora da curva, talento refinado, desvelando o próprio timbre daquela mulher paraense, alcançando notas extraordinárias, cuja emoção e técnica propagam-se no mesmo diapasão. Os atores Ananda k, Clarah Passos, Daniel Carneiro, Diego Luri, Fernando Leite, Keren Silveira, Mona Vilardo, Naime e Thuca Soares mantêm coesão, tomando o palco repletos de entrega e força, com destaque para a voz imponente de Gabriel Manitta ao viver o Papa e Sergio Dalcin, numa corporeidade exuberante na cena do boto.

A cenografia de Ronald Teixeira simboliza a natureza enriquecedora do norte brasileiro. Um dos pontos altos do espetáculo é o figurino de Claudio Tovar ao abusar de africanidade e indigeneidade. Tovar abre a cena com a protagonista num longo preto e capa brilhantes, veste a mesma com um manto dourado de tirar o fôlego, mistura renda - muito apropriada à região - impondo o cru, sobrepondo vestimentas tradicionais, instituindo teatralidade. Paulo César Medeiros investe no azul ao abrir o pano, enfatizando a memória, em perfeita sintonia dramatúrgica, invade o espaço com verde ressaltando a floresta amazônica. Renato Vieira desenha corpos com graciosidade, sobressaindo-se na coreografia do boto. Amalgamando ritmos regionais e modernos, Marcelo Alonso Neves acerta numa direção musical compatível. Os 50 anos da carreira de Fafá de Belém estão exaltados nesta obra que deve ser apreciada!

SERVIÇO

FAFÁ DE BELÉM, O MUSICAL

Teatro Riachuelo Rio (Rua do Passeio, xx - Cinelândia0

Até 8/3, quintas e sextas-feiras (20h) | sábados e domingos (17h) | Ingressos entre R$ 40 e R$ 200