Por: Cláudio Handrey - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / TEATRO / HAMLET: Direção inventiva

O ator e diretor celebra 15 anos da Cia Teatro Esplendor com nova tradução assinada pelo imortal Geraldo Carneiro | Foto: Divulgação

Há uma universalidade na famosa obra do bardo inglês que transpassa leitura política, investigando estados psicanalíticos: desejo, inveja, loucura, cuja engendrada carpintaria de William Shakespeare trafega poderosamente até hoje. Com tradução objetiva de Geraldo Carneiro, "Hamlet" é um dos projetos escolhidos pela excelente Cia Teatro Esplendor para comemorar seus 15 anos, sempre amparados por dramaturgos de tamanha relevância.

Shakespeare e Brecht não trocaram ideias, obviamente, mas Bruce Gomlevsky decreta algum diálogo entre eles. A direção perspicaz destaca-se em aproximar a plateia do ato cênico, como na era elisabetana, ecoa a questão ética e política, esfacela a ilusão do espectador, revela o espaço e seus aparatos, oferece uma visão analítica, cria rupturas como a projeção do filme/metateatro, numa acertada inspiração brechtiana.

Além disso, institui uma contemporaneidade, insuflando na encenação microfone, computador, celular, bombinha de asma - um deboche adequado o Rei fazer uso do objeto - projetor, notificação de WhatsApp, mesclando humor e tragédia. Os atores convidam o público a dançarem a trilha deleitosa de Sacha Amback, como se estivéssemos no castelo de Elsinore. O diretor ainda presenteia-nos com a robotização das personagens Rosencrantz e Guildenstern, numa alusão à inteligência artificial. Ademais, Gomlevsky sustenta com sapiência a tragicidade shakespeariana.

O protagonista de Bruce percorre com sagacidade as matizes que o complexo Hamlet propõe, variando entre depressão, escárnio e arrebatamentos emocionais. Gustavo Damasceno desenha seu Cláudio com variações sarcásticas, depurando seu talento contínuo, Jaime Leibovitch passeia com sabedoria pela contundência de seu Polônio e diverte-nos com seu coveiro, Ricardo Lopes é bem conduzido na ótima cena em que Horácio incorpora o fantasma do Rei - outro ponto alto da concepção, que cria uma espécie de sessão espiritualista numa releitura engenhosa da narrativa. Sirléa Aleixo, Glauce Guima, Vitor Thiré, Maria Clara Migliora, Julia Limp, Allita de Léon, Andréa Bak e Guilherme Pinel completam um elenco eficiente.

Nello Marrese cenografa com poucos elementos, expõe uma estrutura/túmulo, simboliza o trono numa cadeira gamer, facilita deslocamentos em perfeita sintonia com a proposta. Maria Callou aposta em amalgamar estilos, sobressaindo-se nos belos figurinos de Ofélia, que passa pelo branco, preto e termina com a falecida num prateado brilhante. Habilidosa, Elisa Tandeta exibe ribaltas como catacumbas destampadas, como se mortos pudessem interceder no destino dos vivos, provoca sombras e movimenta o destempero de Hamlet no seu solilóquio crucial. A montagem acentua, com ironia, o que se passa por verdadeiro, mostrando a sociedade, como vermes implacáveis!

SERVIÇO

HAMLET

Teatro Gláucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde s/nº)

Até 9/2, sábado a segunda (20h) | Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia)