Affonso Nunes
Nos primórdios da TV brasileira, o cronista Stanislaw Ponte Preto - pseudônimo do jornalista Sérgio Porto (1923-1968) - definiu o aparelho como uma "máquina de fazer doido". E o que diria o humorista diante deste mundo cibenético e suas neurotizantes redes sociais? A rotina silenciosa (e perturnadora) de quem filtra diariamente os conteúdos mais perturbadores da internet é o fio condutor de "Job", em cartaz no Teatro Teatro TotalEnergies - Sala Adolpho Bloch.
Estrelada por Bianca Bin e Edson Fieschi, a monategm brasileira do texto do novaiorquino Max Wolf Friedlich revela os bastidores de uma profissão invisível que sustenta a (nem tão) aparente civilidade das redes sociais: a moderação de conteúdo. No centro da trama está Jane, interpretada por Bianca, uma funcionária exemplar de uma grande empresa de tecnologia cuja especialidade é identificar e remover material impróprio da internet. Após anos testemunhando o lado mais sombrio da humanidade através de telas, ela sofre um colapso no ambiente de trabalho.
Afastada de suas funções, Jane é obrigada a frequentar sessões terapêuticas, onde encontra um profissional vivido por Edson Fieschi. É neste espaço de confronto psicológico que o thriller se desenvolve, expondo as fraturas emocionais causadas por uma ocupação que exige distanciamento impossível.
Max Wolf Friedlich é considerado um dos dramaturgos mais atentos às contradições do presente. O jovem autor constrói em "Job" uma radiografia incômoda da era digital, questionando não apenas as condições de trabalho dos moderadores de conteúdo, mas também a responsabilidade coletiva de quem consome e produz material nas redes sociais. Sua dramaturgia nos coloca diante de um espelho nada confortável para uma sociedade que prefere não olhar para os bastidores de sua própria (in)civilidade online.
A montagem brasileira tem direção de Fernando Philbert, responsável por espetáculos como "Três Mulheres Altas" e "Todas as Coisas Maravilhosas", e produção de Luciano Borges e Edson Fieschi - a mesma dupla por trás do fenômeno "Prima Facie", o premiado solo estrelado por Débora Falabella..
O texto original estreou em setembro de 2023 no Soho Playhouse, em Nova York, com Peter Friedman - conhecido por sua participação na série "Succession" - e Sydney Lemmon nos papéis principais. A recepção crítica imediata levou a obra à Broadway já em junho de 2024, conquistando indicações a diversos prêmios. O jornal The New York Times classificou "Job" como "um thriller sofisticado e implacável", destacando sua capacidade de transformar um tema contemporâneo urgente em tensão dramática consistente.
Moderadores de conteúdo digital enfrentam rotinas de trabalho psicologicamente devastadoras, expostos diariamente a violência gráfica, pornografia infantil, terrorismo e discursos de ódio. Estudos internacionais têm documentado altas taxas de transtornos mentais entre esses profissionais, que frequentemente trabalham sob condições precárias e com suporte psicológico insuficiente. "Job" dramatiza essa realidade invisível, questionando os custos humanos da manutenção de plataformas digitais aparentemente seguras.
SERVIÇO
JOB
Teatro TotalEnergies - Sala Adolpho Bloch (Rua do Russel, 805 - Glória)
Até 22/2, sextas e sábados (20h) e domingos (18h)
Ingressos: Plateia central - R$ 150 e R$ 75 (meia) | plateia ateral - R$ 50 e R$ 25 (meia)