Inspirado na comédia de costumes que invadiu os palcos brasileiros com Martins Pena no início do século XX, "O Formigueiro" interpõe-se como um dos espetáculos mais harmoniosos no panorama teatral carioca. A comédia dramática de Thiago Marinho possui uma carpintaria exemplar, a julgar pelo encadeamento arguto e sensível que o autor exibe. Há uma fluidez exuberante na construção da trama, na qual a logicidade apresenta-se, desaguando em efeito dramático raramente visto. Uma linha tênue entre amor e ódio fulgura nas personagens, como numa obra de Eugene O'Neill, onde a raiva exaspera-se enquanto o afeto atenua. A partir do Alzheimer da progenitora, a dinâmica familiar estabelece novos rumos. Dois irmãos, uma irmã e seu marido encontram-se para comemorar o aniversário materno, produzindo embates que oscilam entre dor e humor, numa simbiose ajustada da excelente dramaturgia. A peculiaridade dos papéis enriquece o conflito, pelo qual traumas, fragilidades, segredos, verdades são expostas, manifestando na plateia uma identificação imediata.
A direção, com supervisão de João Fonseca, é do autor, que impulsiona sua escrita com sabedoria. Tudo foi devidamente articulado, para que todas as funções exalassem verossimilhança em espontânea teatralidade. Perspicaz, o encenador obtém um naipe de atores talentosos, facilitando sua proposta cênica, conquistando uma uniformidade no elenco e espetáculo.
Há uma sinergia poética entre os intérpretes, além de uma retidão que transparecem comungar. O ótimo Rodrigo Fagundes explora sua comicidade, traduzindo a fragilidade de seu Luiz, fracassado profissionalmente. O ator, dono de uma teatralidade potente, abrilhanta-se um pouco mais quando, no tempo certo, vai provar um strogonoff já desandado numa situação inusitada. A Joana de Roberta Brisson é seca, pragmática, desenvolvendo sua performance um pouco mais contida, repleta de nuances, numa elegância daquela que batalhou por um status diferenciado. Lucas Drummond é o mais discreto de todos, já que seu Victor dialoga com o suicídio, revelando Inteligência e carisma em sua execução. Diego Abreu desenha seu corrupto Cláudio Márcio em cores mais fortes, sem tipificá-lo. Hábeis, os quatro humanizam a atração.
Paredes, armário, fogão, geladeira são estilizados na cenografia inventiva de Victor Aragão, num contraponto de uma televisão realista, pela qual a memória se faz presente. O figurino de Luísa Galvão passeia por tons terrosos, menos o de Cláudio Márcio, que é agregado familiar. A luz delicada de Felipe Medeiros contrasta com singeleza o desespero parental. A metáfora de que ao perdemos nossas rainhas tornamo-nos mais competitivos, evidencia que "O Formigueiro" é uma obra-prima.
SERVIÇO
O FORMIGUEIRO
Teatro Firjan Sesi Centro (Av. Graça Aranha, 1, Centro)
Até 4/2, de segunda a quarta (19h)
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)