Artista brilhou nos palcos como atriz e diretora e presenteou o Brasil com atuações inesquecíveis no cinema, na teledramaturgia e foi enredo de carnaval
Uma das maiores atrizes brasileiras de todos os tempos, Marília Pêra nasceu em 1943 numa família artística, com pai e mãe atores. Nesta quinta-feira (22), competaria 83 anos.
Multiartista! Além do seu notável talento cênico, Marília Pêra era bailarina, cantora e diretora teatral. Aclamada pela crítica e pelo público por sua versatilidade. Extremamente disciplinada, argumentava que tudo poderia parecer fácil, mas esmerava-se em estudar exaustivamente para chegar naquele ponto satisfatório, pelo qual todos ficavam extasiados. Nasceu para abrilhantar a cena teatral, televisiva, cinematográfica. E abusou desse direito.
Adentrou os palcos aos 4 anos, integrando o elenco da companhia Henriette Morineau e não parou mais. Foi aprimorando sua aptidão até tornar-se um monstro sagrado do teatro nacional. Nos anos 1960 fez "My Fair Lady" ao lado de Bibi Ferreira, "Como Vencer na Vida sem Fazer Força". Foi agredida pelo Comando de Caça aos Comunistas em 1968, durante a ditadura militar em São Paulo no espetáculo "Roda Viva", de Chico Buarque. Nada capaz de calar sua expressão artística.
Multipremiada! Em 1969 recebeu o Prêmio Moliére, além do Prêmio da Associação Paulista de Críticos Teatrais de Melhor Atriz pelo desempenho em "Fala Baixo Senão Eu Grito". Recebeu novamente o Moliére, além do Prêmio Governador do Estado pelo elogiadíssimo monólogo "Apareceu a Margarida". Em 1975 cantou Carmem Miranda no prestigiado palco do Lincoln Center, no coração de Nova Iorque. Em 1979 atuou ao lado de Paulo Autran em "Pato com Laranja", um fenômeno de público e crítica. Em parceria inquestionável com Marco Nanini, em 1981, arrematou outro Moliére de Melhor Atriz pela comédia "Doce Deleite". Ganhou o Prêmio Mambembe de Melhor Atriz em 1983 por "Adorável Júlia".
Multiapreciada! Em 84 foi aclamada pela crítica no solo "Brincando Em Cima Daquilo, em que abiscoitou novo Prêmio Moliére de Melhor Atriz. Presenciei. Revi duas vezes mais e tive a certeza de estar diante de um dos maiores acontecimentos do teatro nacional, a julgar pelas variações de tons, ritmo, climas, pelos quais Marília encantava a todos. E desde então absorvi como a tristeza, o drama mistura-se à comédia.
Dirigiu em 1986 um dos maiores sucessos do nosso teatro, "O Mistério de Irma Vap", com Marco Nanini e Ney Latorraca, permanecendo 11 anos em cartaz. Viveu mulheres antológicas em musicais de sucesso. Em 1997 abrilhantou-se em "Master Class", conquistando os Prêmios Shell, Mambembe e Apetesp de Melhor Atriz. Assisti nove sessões. Fez Nelson Rodrigues em "Toda Nudez Será Castigada" em 1998, e em 2004 notabilizou-se ainda mais em "Mademoiselle Chanel", outro Prêmio Shell de Melhor Atriz. Evidenciou-se em "Gloriosa" em 2009. Com Miguel Falabella destacou-se no musical "Alô, Dolly", em 2013.
No cinema resplandeceu em obras como: "Pixote, a Lei do Mais Fraco", recebendo os Prêmios como Melhor Atriz da Sociedade de Críticos de Cinema de Boston, da Associação de Críticos de Los Angeles, além dos filmes "Bar Esperança", "Dias Melhores Virão", "Tieta do Agreste", "Central do Brasil", e na sua afinada parceria com Falabella, viveu irmãs gêmeas em "Polaróides Urbanas". Iluminou a TV com seu talento em "O Cafona", "Quem Ama Não Mata", "Brega e Chique", em "Primo Basílio" personificou uma Juliana carregada de dramaticidade. Estivemos na novela "O Campeão", em 1996 na TV Bandeirantes, vivendo Elizabeth, que foi sequestrada por um sujeito doentio, felizmente interpretado por mim. Foi um desses presentes que a vida nos dá e logo ficamos próximos, passando boa parte da trama no mesmo cenário.
Ávido por conhecê-la melhor e ouvir seus relatos da profissão, colocava-me por perto, até que me revelou: "Gosto mais da vida cênica do que a vida real, parece que sou mais verdadeira quando estou vivendo uma personagem." E ainda fez "O Maias", "Cobras e Lagartos", e de volta ao amigo Falabella participou de "A Vida Alheia", "Aquele Beijo" e "Pé na Cova", na qual arriscou-se numa inocência poética, melancólica, em filigranas que transcendeu a tela.
Diante de tanto brilho só faltava virar enredo de escola de samba? Mas não faltou. Marília e sua trajetória artística irretocável foi homenageada na avenida do desfile da agremiação paulistana Mocidade Alegre no carnaval de 2015. Nada mais justo.
Numa genialidade ímpar, habitava em suas vísceras uma carga dramática inigualável, que trafegava por esferas diferenciadas demonstrando uma magnitude em situações tenebrosas, trágicas e, de forma brusca, sem transição, conduzia-nos à leveza, ao humor, ao patético. E por muitas vezes tudo isso concomitantemente. Uma atriz dessa grandiosidade não fenece jamais, só passa a estrelar outra constelação. A cena brasileira agradece a sua expertise, Marília!