A obra do autor escocês Eric Coble é um afago aos amantes do bom teatro. Numa tradução fluida de Diego Teza, o texto propõe uma viagem onírica, pela qual somos fisgados desde que um sax ecoa - trilha elegante e delicada de Marcello H. - atravessando nossas emoções ao descortinar o espetáculo. Com uma discussão existencialista, um humor patético instala-se nos vocábulos engendrados por Coble. Duas personagens solitárias estabelecem uma relação ao se depararem com a presença do coyote, um animal selvagem que adentra o prédio onde moram.
Fascinados pelo mamífero invasivo tornam-se cúmplices em situações inusitadas ao abordarem questões do capitalismo desenfreado, do individualismo gritante, da deterioração ambiental e o impacto na saúde física e mental do ser humano. "Coyote" nos faz refletir como a humanidade rechaça cada vez mais a natureza, produzindo seu próprio abismo. Há uma inspiração beckettiana na narrativa, a julgar pela percepção do desespero em habitar um mundo insustentável, onde o sentido da vida torna-se questionável.
O destaque é a sintonia fina que a dupla de atores concebe, revelando técnica apurada, numa envergadura cênica raramente exibida nos palcos. Ambos exalam segurança, traduzem poeticamente a temática proposta, além de instituírem um ritmo vertiginoso, com pausas abruptas repletas de significado, já que assinam também a condução da montagem, em que todas as funções agregam adequadamente. Vale ressaltar o perigo de estar em cena e dirigir ao mesmo tempo, mas sensíveis e perspicazes buscaram um olhar atento do diretor Jefferson Miranda. Karen Coelho personifica sua Melinda com a dureza daquela que trabalha exaustivamente, numa aridez e estranheza de quem vive sufocada por hábitos automatizados. Rodrigo Pandolfo constrói seu Tony filigranadamente, numa expressão corporal vergável, mesclando humor e tristeza ao cortar as palavras repetidamente, sem que nada pareça inaudível, desvelando com sabedoria a fragilidade daquele homem sem ocupação, numa desesperança aterradora.
Outro acerto é o cenário de Cassio Brasil, recheado de simbolismo, em que um piso emborrachado de crossfit desvela uma metrópole cimentada, numa ideia de que as personagens estivessem num esforço brutal para alcançarem o sentido das coisas, o quadrado em que estamos aprisionados e insociáveis, e por baixo da estrutura a terra se mostra, num jorro metafórico de extrema beleza. O figurino do mesmo é simples e apropriado. A luz de Ney Bonfante é delicada, num realce ao desenhar folhas de árvores contrastando com o chão petrificado. "Coyote" pode ser a porta aberta para nos conectar com a natureza, com os animais, e nos permitir criar laços para que consigamos trafegar por aqui com alguma tranquilidade.
SERVIÇO
COYOTE
Teatro Poeirinha (Rua São João Batista, 104 - Botafogo)
Até 1/3, de quinta a sábado (20h) e domingos (19h)
Ingressos: R$ 100 e R$ 50 (meia)