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Do abismo à cena

Milla Fernandez em cena em 'TIP' | Foto: Alê Catan/Divulgação

Espetáculo "TIP" parte da experiência de Milla Fernandez como camgirl durante pandemia para provocar uma potente reflexão sobre performance, desejo e sobrevivência

A crise sanitária que paralisou o país entre 2020 e 2021 forçou milhares de artistas a reinventar formas de subsistência. Para a atriz Milla Fernandez, essa reinvenção passou pelo universo do entretenimento adulto online. A experiência, vivida com apoio do marido e da família, agora se transforma em matéria-prima da peça "TIP (antes que me queimem eu mesma me atiro no fogo)", que reestreia nesta sexta-feira (16) no Espaço Cultural Municipal Sergio Porto, sob direção de Rodrigo Portella.

O espetáculo de autoficção parte de um momento-limite: sem perspectivas profissionais e diante da necessidade urgente de garantir renda, Milla mergulhou no trabalho como camgirl, atendendo demandas de clientes anônimos em troca de gorjetas - as "tips" que batizam a montagem. O relato pessoal acaba por se desdobrar num amplo questionamento sobre a condição da mulher artista numa sociedade orientada pela imagem e pelo desejo alheio. Em cena, a atriz não poupa a si mesma e transita entre o humor ácido e a exposição de vulnerabilidades, destrinchando situações cômicas, constrangedoras e dolorosas vividas tanto no universo pornô quanto na própria área do entretenimento tradicional.

A dramaturgia propõe uma reflexão sobre os limites entre performance artística e performance erótica, entre autonomia e submissão aos desejos de uma plateia - seja ela composta por espectadores de teatro ou por consumidores de conteúdo adulto. "Na pandemia, sem ganhar um centavo como atriz, eu decidi molhar os pés no universo das camgirls. Acabei mergulhando de cabeça, me afogando num mar violento e só quando cheguei no fundo e pensei que ia morrer, descobri que dá pra respirar embaixo d'água", destaca Milla.

Para a atriz, o processo representou uma revisão radical de suas próprias certezas: "Durante anos meu objetivo foi me sentir segura. Hoje eu quero me sentir cada vez mais confortável na insegurança. Eu pensava que controlar tudo era sinônimo de força. Vivi uma vida inteira tentando estar preparada para quando o mundo caísse. Aí ele caiu e esmagou todas as verdades que eu tinha construído. Essa peça não é uma resposta, é uma pergunta que eu me faço todos os dias."

O diretor Rodrigo Portella, responsável por montagens como "Tom na Fazenda" e "Ficções", reconhece a radicalidade da proposta. "Eu fico abismado com a coragem dela. Eu jamais me exporia dessa forma. Apesar de que nem tudo corresponde à verdade (no que diz respeito aos fatos), essa é uma das peças mais 'de verdade' em que eu já estive envolvido", afirma. "Essa peça, pra mim, é sobre uma jovem atriz que se atira no abismo, uma mulher que se lança no fogo ao invés de fugir ou paralisar. Não é só um ato de coragem, mas de resiliência e reparação. Uma espécie de revisão do seu processo de constituição como pessoa e artista", completa o encenador que em 2025 estreou uma adaptação do romance "Ensaio Sobre a Cegueira", de José Saramago, com o Grupo Galpão, e o musical "Ray - Você Não Me Conhece", vencedor do Prêmio APCA 2025 de Melhor Direção.

A encenação, ensaiada em Barcelona - onde vivem diretor e atriz - com apoio da prefeitura local, aposta em recursos minimalistas. Longos tapetes vermelhos funcionam como único elemento cenográfico, evocando simultaneamente glamour e artifício. Portella faz escolha radical ao retirar os tradicionais panos pretos da caixa cênica, expondo a arquitetura teatral e explicitando para o público que está diante de uma construção, não de uma ilusão naturalista. A trilha de Federico Puppi e Leo Bandeira tem caráter essencialmente percussivo, complementado por Milla Fernandez, que toca sax durante o espetáculo. O figurino de Karen Brusttolin busca desviar dos clichês e dos fetiches.

Ao transformar a própria fragilidade em potência criativa, Milla Fernandez propõe ao público um pacto de honestidade radical - ainda que mediado pela elaboração artística - sobre os impasses da sobrevivência material e simbólica de mulheres artistas no capitalismo contemporâneo.

SERVIÇO

TIP (ANTES QUE ME QUEIMEM EU MESMA ME ATIRO NO FOGO)

Espaço Cultural Municipal Sergio Porto (Rua Humaitá, 163) | De 16/1 a 8/2, às sextas e sábados (20h) e domingos (19h) | Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)