Montagem brasileira do texto do escocês Eric Coble reúne Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo em reflexão sobre solidão urbana e crise ambiental
Após breve e bem-sucedida temporada em São Paulo, o espetáculo "Coyote" chega ao Teatro Poeirinha trazendo o texto inédito no Brasil do dramaturgo escocês Eric Coble, indicado ao Tony, Emmy e Pulitzer. A montagem, com direção e atuação de Karen Coelho e Rodrigo Pandolfo, com interlocução artística de Jefferson Miranda, propõe uma discussão urgente sobre as consequências do capitalismo e da devastação ambiental para a saúde física e mental das pessoas, utilizando elementos do realismo fantástico e do teatro do absurdo para abordar temas contemporâneos com leveza e profundidade simultâneas.
Eric Coble nasceu em Edimburgo (Escócia), mas cresceu nas reservas Navajo e Ute, no Novo México e Colorado (EUA). Sua trajetória como dramaturgo inclui a peça "The Velocity of Autumn", indicada ao Tony e ao Pulitzer, que estreou na Broadway no Booth Theatre em 2014, com as atuações de Estelle Parsons e Stephen Spinella. Suas obras foram produzidas em todos os 50 estados americanos e em diversos países, consolidando sua reputação como autor.
Originalmente intitulada "My Barking Dog", "Coyote" acompanha dois personagens urbanos cuja solidão é interrompida pela aparição misteriosa de um animal selvagem. A peça é contada diretamente para o público, criando uma relação de cumplicidade que permite ao espectador tanto se divertir com as situações absurdas quanto refletir sobre questões urgentes de nosso tempo. Melinda trabalha durante a madrugada em uma fábrica de impressão, seguindo uma rotina mecânica desprovida de entusiasmo ou interação social significativa. Tony, desempregado e desiludido, mal consegue arcar com as contas básicas e questiona sua própria motivação para continuar vivendo. Os dois vizinhos mal se conhecem até que, certa madrugada, avistam um coiote na escadaria do prédio, cada um de seu ponto de vista particular.
A fascinação que se apodera de ambos é imediata. Noite após noite, eles aguardam ansiosamente que o animal reapareça. Quando Tony observa Melinda levando carne crua para o visitante inesperado, os dois se tornam cúmplices e parceiros dessa experiência peculiar, iniciando uma parceria que os tira do isolamento e os obriga a questionar por que um animal selvagem estaria invadindo a área urbana. Essa interrogação conduz inevitavelmente a uma reflexão maior sobre os impactos da devastação ambiental e sobre o modelo de vida que adotamos coletivamente.
Para Karen Coelho, atriz e codiretora, a peça funciona como provocação surrealista sobre a necessidade de criação de um novo mundo onde a natureza possa ocupar novamente seu lugar entre os humanos. "Coyote nos traz questionamentos a respeito da direção que esse sistema tem nos conduzido. O texto aborda de forma fabular, com comicidade e leveza, temas urgentes pro nosso tempo. O que estamos fazendo, ao longo da evolução humana, é justamente nos afastar da natureza. E as consequências disso são devastadoras, tanto pro meio ambiente, quanto pra nossa saúde física e mental", comenta a atriz.
Rodrigo Pandolfo, ator e codiretor, acrescenta uma dimensão adicional ao trabalho ao enfatizar a solidão como tema central. "Preso em seu quadrado, o indivíduo deixa de alimentar a sua melhor possibilidade de cura: a relação com os outros. O individualismo tem imperado de tal forma, que talvez seja mais fácil trocar afeto com um cão, um gato ou um coiote. E quem sabe eles, os animais, sejam os mensageiros da mudança que precisamos realizar?", indaga o ator. Essa reflexão aponta para uma dimensão psicológica profunda: a possibilidade de que a reconexão com a natureza seja também uma forma de reconexão com nossa própria humanidade e com a capacidade de estabelecer vínculos genuínos.
A encenação mantém viva a zona de incerteza entre o estranho e o maravilhoso, convocando o espectador a atravessar a hesitação e ouvir o que ressoa quando o chão se move. As atuações de Karen e Pandolfo são destacadas como vigorosas e sensíveis, com performances que exploram corpo, ritmo e espaço com liberdade criativa.
A montagem é completada por uma equipe técnica experiente: cenário e figurino de Cassio Brasil, iluminação de Ney Bonfante, direção musical de Marcello H., direção de movimento de Toni Rodrigues, com tradução de Diego Teza.
SERVIÇO
COYOTE
Teatro Poeirinha - Rua São João Batista, 104 - Botafogo, RJ
Até 1/3, de quinta a sábado (20h) e domingos (19h)
Ingressos: R$ 100 e R$ 50 (meia)