Aprimeira vez que o Shakespeare da zona portuária santista chamado Plínio Marcos (1935-1999) abriu pano na peça "Quando As Máquinas Param", dirigindo Míriam Mehler e Luiz Gustavo, numa sala do TBC, em São Paulo, em 1967, o texto já arrastava uma história... de luta. O simbolismo de resistência - a dois - à opressão do capitalismo, que se vê na trama do autor de "Navalha na Carne", foi idealizado por ele em 1963, com outro nome, "Enquanto os Navios Atracam", e tinha um terceiro personagem: Seu Mané. Sua narrativa chegou a ser encenada assim, mas o dramaturgo depurou a escrita e reescreveu sua crônica sobre vidas na periferia - ou, no idioma dele, "as quebradas do mundaréu".
Quase sessenta anos depois de a versão definitiva de Plínio nascer, uma nova montagem, dirigida pelo ator Heitor Martinez, devolve aos palcos do Rio (no caso, o Teatro Vanucci) o casal Nina e Zé (vividos por Bella Zafira e Pedro Di Carvalho). Imortalizado no imaginário pop carioca no verão de 1998, por seu desempenho no filme "Como Ser Solteiro", e famoso por novelas de audiência bombada, Heitor reafirma suas destrezas como encenador revisando um pilar de nosso teatro. Estreia nesta terça, às 20h.
Em cena, Nina tenta segurar as pontas como costureira, enquanto Zé, operário desempregado, briga contra a angústia de ser descartado pelo sistema que o vê apenas como peça de uma engrenagem que parou. As sessões da peça rolam sempre às teças, até o dia 3 de fevereiro.
Neste papo, Heitor fala de Plínio e lista achados do curso de formação em que leciona, na Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), já lotado em janeiro, mas com vagas abertas pro mês que vem.
Qual é a pertinência de Plínio Marcos no teatro que se faz hoje no Brasil?
Heitor Martinez - Plínio Marcos trouxe a periferia para as discussões, virou os holofotes para aqueles que trafegavam à margem da sociedade e não possuíam qualquer canal de voz para se manifestar artisticamente a não ser nas vielas e becos das favelas e conjuntos habitacionais espalhados pelo país. Talvez seu legado esteja em todo e qualquer grupo que insiste em subir ao palco pra falar do cotidiano de sobrevivência do povo trabalhador, daqueles que insistem em provar que a gente não é só comida, que a gente é diversão, arte e balé. Ao expor o que a sociedade sempre quis esconder, Plínio provou, na prática, que a arte é um fundamento no conhecimento de um povo, na compreensão de nossas mazelas internas, culturais e sociais. Faço um paralelo aqui com outro gênio do teatro brasileiro, Augusto Boal, que trouxe não-atores pra cena, que nos apresentou um teatro real, nas ruas, a realidade nua e crua do cidadão comum. Os personagens de Plínio são essas pessoas, gente que interpreta a vida do dia a dia, que não aparece na coluna social e nem nas novelas, que representa a maioria da população, mas não era representadas nos palcos.
Como se deu o processo de direção? Que trajetória como diretor você já possuía?
Meu caminho na direção nasceu no momento em que voltei à sala de aula. A experiência de voltar à faculdade, deu-me a abertura e a coragem para me aventurar numa vontade que sempre esteve presente em mim. Estar em um ambiente de experimentação, poder observar os colegas sem a cobrança do erro, ouvir e perceber inúmeras manifestações nos exercícios propostos me ascendeu a luz do condutor. Fui descobrindo também, ao longo desse processo, que já possuía um arcabouço técnico, fruto dos meus mais de 30 anos de carreira. Após a formatura, fui convidado por minhas colegas de turma, Juliana Martins e Maitê Padilha, para dirigir minha primeira peça, "A Dona da História", de João Falcão. Posso garantir que foi uma das minhas maiores experiências profissionais e o resultado do processo me deixou extremamente realizado. Criar uma ideia estética a partir de uma leitura e guiar as atrizes no entendimento do texto me completou como artista. A oportunidade de dirigir "Quando As Máquinas Param" só fez reafirmar a completude que é tirar um conceito do papel.
O quanto seu curso com Ricardo Cônti tem redesenhado a sua forma de pensar a atuação?
Outra oportunidade que se abriu após cursar o bacharelado na CAL foi ter conhecido Ricardo Cônti e aceitado seu convite para participar do curso que ele já ministrava lá: "O Poder da Câmera". Eu me apoiei no que havia estudado e aprendido na faculdade e com o passar das aulas e turmas, pude perceber o quanto minha experiência nos palcos e estúdios poderia contribuir no aprendizado de estudantes. Foi a chance perfeita também para colocar em prática o tema do meu trabalho de conclusão: a utilização do aikidô, uma arte marcial japonesa, na preparação física e emocional do interprete em cena. Esse paralelo que tracei entre teatro físico e o aikidô se baseia fundamentalmente na colaboração entre os participantes, no autoconhecimento, na respiração e no equilíbrio entre corpo e mente.
Que projetos você tem para 2026 na TV, no teatro e no cinema?
Espero que "Quando as Máquinas Param" tenha uma vida longa esse ano. A produção é dos atores, Pedro Di Carvalho e Bella Zafira, não temos apoio, nem patrocínio, e estamos tocando o projeto na vontade de estar em cena mesmo. Também estou em um projeto de uma peça do Ernesto Piccolo, com texto da Thalita Rebouças. Estamos em fase de captação e torço pra que seja montada logo, as leituras foram deliciosas! No cinema estou aguardando o lançamento do filme "Marido de Aluguel", com direção do Paulo Fontenelle. Desde 1998, todo verão evoca saudades de "Como Ser Solteiro", de Rosane Svartman.
O que esse filme te trouxe de mais enriquecedor e que caminhos ele definiu pra sua carreira?
Não tem como pensar em "Como Ser Solteiro" e não sentir um calor no coração. Foi meu segundo longa, logo após "Tieta", do Cacá Diegues. Foi um filme realizado por amigos. A maioria dos profissionais envolvidos já se conhecia das praias e dos bares da cidade. Éramos jovens em início de carreira e seguimos os sonhos da Rosane e da Clélia Bessa nessa aventura muito bem contada e realizada. É um filme que passa alegria de viver, feito com tanto carinho e entrega que contagiou quem assistiu. Saí do Estação Botafogo em lágrimas.