Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

A ousadia de 'desrespeitar' Dostoiévski

Caio Blat divide a direção de 'Os Irmãos Karamázov' com Marina Vianna, que estreou em 2025 e regressa agora no Teatro Carlos Gomes | Foto: Rafael Bougleux/Divulgação

Caio Blat volta ao palco com a peça 'Os Irmãos Karamázov', da qual é codiretor

Marcada para começar às 17h, no Teatro Carlos Gomes, a apresentação deste domingo do espetáculo "Os Irmãos Karamázov" acaba a tempo de a sua plateia conferir o desempenho de rasgar corações de seu codiretor e também ator, o paulista Caio Blat, em outra latitude, no caso, a televisão, na transmissão que a TV Brasil fará de "Proibido Proibir" (2006), às 21h30. É um cult que nos reeduca sobre alianças, assim como a montagem encenada por Marina Vianna e pelo astro, no ano passado, no Sesc Copacabana.

Quem pode vê-la, em 2025, sabe o quanto o público sai da imersão teatral na prosa de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) zonzo, sem saber onde acaba a Rússia do século XIX e onde começa o Rio de hoje - até pela permanência de certas chagas morais. A zonzeira se repete agora que essa visita à Rússia dos czares de instala em casa nova, no Centro. Esta noite, que for ao Carlos Gomes, vai se encantar ao ver como o romance publicado em 1880 saiu das páginas para virar dramaturgia à brasileira, com frases de lavar almas como "Não sei o que eu faria com quem inventou essa história de Deus".

As sessões no Carlos Gomes às quintas e às sextas são às 19h. Sábados e domingos são às 17h. Nelas, o legado de Dostoiévski vai além da retidão do verbo na descrição da perplexidade. Sua herança mais valiosa é a postulação da tolerância como acordo para viabilizar a sobrevivência. É desse postulado que parte a montagem. "Várias falas da peça sobre a Rússia cabem perfeitamente quando pensamos o Brasil hoje", alerta Caio, ao ponderar sobre a hora e a vez de levar "Os Irmãos Karamázov" de volta ao Rio. "Foram anos de estudo, a adaptação levou décadas para ficar pronta, e eu nunca tinha tido coragem de assumir a direção. Claro que eu estava junto com a Marina, que é uma professora incrível e uma diretora extraordinária. Ela foi fundamental, e a gente construiu uma parceria muito bonita. Essa ideia de desrespeitar Dostoiévski, de fazer uma adaptação contemporânea, misturando gêneros, incorporando atitudes, situações atuais e músicas modernas, foi central para o processo".

Tem Caio em muitas telas neste fim de semana, em muitos formatos, em muitas plataformas. No Globoplay, ele aparece em minissérie ("O Bem-Amado"), em série ("Amor e Sorte"), em filme ("Grande Sertão"). Está ainda na novela "Beleza Fatal", da HBO Max. Domingão, ele resplandecerá na grade - aberta - da maior emissora pública educativa da nação, a TV Brasil, numa das atuações mais flamejantes de sua trajetória. Lançado há 20 anos no Festival do Rio, "Proibido Proibir" aniversaria agora, chegando a duas décadas de prestígio, narrando com ardor um triângulo amoroso entre estudantes da UFRJ (Maria Flor, Blat e Alexandre Rodrigues). Nas franjas do querer, flagra desajustes sociais de um Rio que não aparece nos cartões-postais padrões da Cidade Maravilhosa, da Ilha do Governador à Penha. Dirigido por Jorge Durán, a produção junta thriller, romance e ciências sociais. Com os Karamázov do Carlos Gomes é igual.

"É curioso perceber que a Rússia está invadindo a Ucrânia, com impulso expansionista, enquanto a América Latina acabou de ser invadida também. A Rússia dos Karamazov era uma Rússia pré-revolucionária, em que começaram a se formar grupos anarquistas e socialistas, um país empobrecido às vésperas de uma revolução. O Brasil dos últimos anos, desde 2013, também é um país rachado, com manifestações constantes e disputas políticas muito intensas", dimensiona Blat, com a mesma lucidez geográfica que avassala os personagens de "Proibido Proibir", um dos longas mais possantes de sua premiada carreira.

Um dos curadores do Festival de Gramado, o ator, que desfilou talento nas telas em joias do quilate de "Lavoura Arcaica" (2001), "Carandiru" (2003), "Bróder" (2010) e "BR 716" (2016), viveu um ano mágico em 2006. Apareceu na peça "Essa Nossa Juventude" e nos longas "O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger; "Baixio das Bestas", de Claudio Assis, e "Batismo de Sangue", de Helvécio Ratton, paralelamente ao frenesi que "Proibido Proibir" fez país afora. De cara, um de seus protagonistas, o aluno de Medicina Paulo (Blat, sublime) é arisco com a estudante de Arquitetura Letícia (Maria Flor), namorada de seu melhor amigo, o formando em Ciências Sociais Leon (Alexandre Rodrigues, o Buscapé de "Cidade de Deus"). O "Jules et Jim" suburbano entre eles colide com a luta de Leon para defender um adolescente jurado de morte pela polícia depois de testemunhar um ato de corrupção. Luis Abramo assina a fotografia dessa produção.

"O 'Proibido Proibir' é um dos meus filmes mais lindos e emocionantes. Tinha aquela coisa meio Nouvelle Vague e também o fato de a gente ser muito jovem. O aprendizado com o Durán, que é um mestre, foi fundamental. Foi também um dos últimos filmes rodados em película, em 35 milímetros, o que torna tudo ainda mais especial para mim", lembra Blat, que começa 2026 dirigindo uma peça nova, uma adaptação da literatura de Franz Kafka (1883-1924): "Um Artista da Fome". "Kafka já estava morrendo de tuberculose quando escreveu alguns contos bastante obscuros sobre a condição do artista. Vou realizar um sonho muito importante na minha vida, que é fazer uma peça com meu primo Ricardo Blat, um dos maiores atores de teatro do país e uma das minhas maiores inspirações. Agora vou realizar esse sonho de contracenar com ele e também de dirigi-lo, com texto adaptado pelo Rogério Blat, que também é meu primo. Vai ser um projeto bastante familiar. Já estamos ensaiando e a estreia está prevista para março, em São Paulo, no Sesc Bom Retiro".

Paralelamente, Blat filmou o longa "Justino", de José Eduardo Belmonte, protagonizado por Christian Malheiros. É a história de um pastor que dedicou sua vida à igreja, mas que encontra redenção e amor nas ruas. "Trabalhar com o Belmonte é sempre especial. É um diretor incrível na condução dos atores, e é sempre um aprendizado. Também acabei de fazer um filme com a Maria Ribeiro. Um longa sobre a história de um casal que viveu junto, teve filhos, se casou, construiu uma casa, um sonho e uma carreira em comum, e depois se separou. O filme deve se chamar 'Depois' e é dirigido por Renata Paschoal. Começo 2026 com dois lançamentos no cinema muito importantes para mim".

SERVIÇO

OS IRMÃOS KARAMÁZOV

Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/n° - Centro) Até 18/1, quintas e sextas (19h) e sábados e domingos (17h)

A partir de R$ 80